Sem-terra é assassinado em Querência
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terça-feira, 30 de março de 1999
Marcos Zanatta 
Mais de 300 pessoas participaram ontem do rápido velório do sem-terra Eduardo Anghinoni, 30 anos, em Querência do Norte (113 quilômetros a noroeste de Paranavaí). Eduardo era irmão de um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) na região, Celso Anghinoni, e morreu na noite de anteontem com cinco tiros disparados por um desconhecido. Ele foi velado por cerca de duas horas na sede do MST em Querência do Norte, e depois levado para Medianeira, onde seria enterrado.
Segundo um dos irmãos da vítima, Alexandre, que mora no mesmo assentamento que Celso, o Pontal do Tigre, Eduardo chegou de viagem anteontem de noite. Ele foi direto para a casa de Celso, onde os irmãos se reuniram, menos Alexandre, que estava em Querência do Norte. Por volta das 21h30 os demais parentes foram embora, ficando na casa apenas Eduardo, Celso, e esposa dele e dois filhos. Pouco antes das 22 horas, segundo versão da família, um pessoa quebrou o vidro da janela da sala, onde a vítima assistia TV, e disparou cinco tiros. Todos atingiram Eduardo.
Dos cinco tiros, quatro atravessaram o corpo e as balas se alojaram na parede da sala. Uma das balas ficou alojada no corpo de Eduardo. A polícia acredita que a arma seja um revólver 38, por causa das balas encontradas no local do crime. Alexandre disse que na hora do desespero, todos correram para socorrer o irmão baleado, nem prestando atenção na pessoa que atirou. Eduardo ainda foi socorrido com vida, mas chegou a Paranavaí, para onde foi levado por Celso, já morto. Lideranças do MST em Querência não querem comentar o crime, apenas lembram que são ameaçados de morte há vários anos.
Delfino Becker, um dos coordenadores do movimento na região, disse que possivelmente o MST vai fazer uma investigação paralela à da polícia. O pistoleiro deve ter atirado pensando que estava pegando o Celso. Ele não soube adiantar se haverá alguma reação por parte do movimento. Tudo depende da decisão dos companheiros. Nossa esperança é que essa violência extrema contra os sem-terra pare. Segundo Becker, na região Noroeste existem cerca de 60 fazendas invadidas pelo MST, 18 áreas em Querência do Norte e mais de 3 mil famílias de sem-terra.
Para a polícia o crime não tem características de ser cometido por pistoleiro. O delegado de Querência, Arildo Fulgêncio de Almeida, disse que um pistoleiro não iria cometer o crime em uma casa onde várias pessoas da família estão reunidas. Ele disse ainda que alguém que comete um crime encomendado poderia ter matado toda a família. Mas não temos nada o que confirmar ainda, disse.
O delegado acha ainda que vai ter dificuldades nas investigações, principalmente por causa do comportamento dos membros do MST, muito fechados segundo ele. O investigador Gilberto Carlos dos Santos notou ontem que apesar das testemunhas alegarem que uma pessoa quebrou um vidro da janela para atirar, os cacos do vidro estão todos do lado de fora da casa. Mas só a polícia técnica pode falar o que aconteceu, disse.
Eduardo Anghinoni está em Querência do Norte há cerca de 30 dias. Ele morava com a mulher e um filho menor em Medianeira, no Oeste. Segundo Alexandre, Eduardo se mudou para a região Noroeste em busca de oportunidade de conseguir uma área. Quando chegou, foi para o acampamento da fazenda Florão, onde existem cerca de 80 famílias ligados ao MST.


