Sem-terra devem invadir duas áreas hoje no MS
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domingo, 21 de setembro de 1997
Agência Estado Campo Grande 
Quase 10 mil sem-terra (2.500 famílias) aguardam para hoje uma decisão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) sobre o cadastramento de 1.060 famílias, entre eles, que foram excluídas da reforma agrária por falta de vocação para a produção agrícola. Eles esperam também uma nova vistoria na Fazenda Santo Antonio, em Itaquiraí, extremo sul de Mato Grosso do Sul, invadida sexta-feira passada. As 2.500 famílias armaram barracas de lona a apenas 400 metros da sede da propriedade rural, e são consideradas uma grande ameaça para o fazendeiro e seus empregados.
O local é destinado à produção e engorda de bovinos. Tem 25 mil hectares, porém estão registrados 19 mil. O restante é reivindicado pelos sem-terra. Caso não seja decidida a situação hoje, os invasores ocuparão as Fazendas Mestiço e Tamakavi. Além dessa promessa, a coordenadoria regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acredita que, durante a semana, começarão a matar bois da fazenda, pois os lavradores estão famintos e sem ajuda alimentar, ou ainda saquear caminhões com gêneros alimentícios que passam pelo lugar da invasão.
Há quatro meses, os sem-terra deixaram a Fazenda Mestiço, onde em apenas um mês mataram mais de uma centena de bois, entre eles reprodutores nelore, depois de desocuparem a Fazenda Santo Antonio, atualmente invadida. Nesse período, ficaram acampados nas margens da BR-163, a 30 quilômetros do centro de Itaquiraí, onde realizaram quatro saques a caminhões de alimentos, além de interrupções do tráfego na rodovia, com pedágios para angariar dinheiro. acampamento está totalmente desativado, pois seus habitantes resolveram invadir a Fazenda Santo Antonio.
Em Jaraguari, a 25 quilômetros de Campo Grande, 160 famílias de sem-terra conseguiram quatro bois e duas vacas, além de muita mandioca, e prometem uma festa dia 28. Elas estavam acampadas nas margens da BR-163, e, com a desapropriação da Fazenda Primavera, que foi propriedade do Banco do Brasil, transferiram-se para a propriedade que estavam reivindicando há cinco anos. Foram convidados para a festa o superintendente regional do Incra, Renato Coimbra, o secretário estadual de Meio-ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Celso de Souza Martins, e até o governador Wilson Barbosa Martins.
O governador disse que dentro de 15 dias terá terras suficientes para assentar 1.500 famílias de Itaquiraí, e com essa decisão resolverá a questão no municipio, onde o prefeito Renato Tonelli (PFL) decretou estado de emergência, alegando total instabilidade da ordem pública, por causa da movimentação dos sem-terra. No decreto, o prefeito afirma que além de sequestro e execução de gado, vários caminhões, que transportavam mercadorias produzidas no Estado e que por aqui passam, foram sequestrados e as suas cargas saqueadas, sem que os autores dessas atrocidades fossem sequer molestados.
O documento afirma ainda que os sem-terra de Itaquiraí representam uma ameaça aos direitos de ir e vir do cidadão, além de produzir efeitos negativos, tanto no aspecto social como no econômico. De acordo com o decreto, o municipio não possui condições de arcar com o ônus dessas atrocidades e violências. O prefeito conclui dizendo que, para evitar maiores consequências, a prefeitura deixou de atender setores importantes, como educação e saúde, para se dedicar somente aos sem-terra, que são em número maior que a população de Itaquiraí.


