Sem-terra depõem e acusam outras mortes
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de maio de 2000
Luciana Pombo De Curitiba 
Mais dois depoimentos de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sugerem o desaparecimento de dois sem-terra, sendo que um deles teria sido baleado à queima-roupa por policiais militares. Luiz Jacineto Barbosa, de 34 anos, conhecido como Mazur e Claudinei de Oliveira Pinto, 22 anos, chamado de Xuxa, depuseram ontem na Delegacia de Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba.
Mazur contou que viu a hora em que um policial militar atirou na barriga de um sem-terra que, segundo afirma, não era o agricultor Antonio Tavares Pereira, de 38 anos, morto na terça-feira. Ele atirou e veio para cima de nós. Eu não podia esperar. Saí correndo com os outros companheiros e deixei ele lá, afirmou.
O fato teria acontecido dentro do matagal, 600 metros longe do asfalto. Lembro dele e sei que até agora ele não reapareceu nos acampamentos. Acho que morreu, supôs, revelando que o sem-terra era moreno, com bigode e barba ralos e cabelo preto, vestindo calça social escura e botina. Tenho certeza que o tiro que o acertou era de revólver. O eco do barulho da bala era muito diferente da bala de borracha, afirmou ele.
O sem-terra afirma que quase foi morto também. Ele teria sido salvo por um senhor que morava na região. Ele pediu que não atirassem em mim. Disse que eu era seu filho e que tinha vindo do trabalho. Pude ficar em paz então, declarou ele, ao contar que consegue chegar até o local onde encontrou o senhor. Xuxa também contou ter visto um PM disparando contra um companheiro, mas não quis conversar com a imprensa. Vi uma pessoa sendo baleada. Isto é tudo o que posso dizer, declarou.
Outro depoimento dado ontem foi o do agricultor conhecido como Alemão, de 33 anos, morador da região de Pitanga. Ele contou que chegou a ver uma pessoa baleada na cabeça perto de uma árvore na BR-277, em Campo Largo, onde ocorreu o conflito entre policiais militares e integrantes do MST, a cerca de 40 metros da rodovia. Ele estava com a cabeça com muito sangue. Ele pedia socorro e tinha outro companheiro com ele, pedindo que eu ajudasse. Mas eu recusei. Achei mais importante salvar minha vida. Ele já estava praticamente morto, afirmou ele, que havia sido citado pelo sem-terra Jair Fonseca (nome fictício) no depoimento de anteontem.
O delegado Osmar Dechiche disse que os relatos apresentados até agora demonstram que dois sem-terra estariam desaparecidos. Um que teria sido baleado na cabeça e outro na barriga. O maior problema é que não temos subsídios ainda. Nenhum desaparecimento oficial, afirmou ele, que detectou a primeira contradição entre os depoimentos dados até agora por Alemão e Jair Fonseca. Jair Fonseca contou que Alemão teria ajudado a arrastar o sem-terra baleado na cabeça até uma árvore. Alemão negou que tenha ajudado, apesar de contar que o companheiro pediu ajuda. Teremos que fazer uma acareação entre os dois para descobrir a verdade, declarou.


