Anhembi, SP, 22 (AE) - As 1.200 famílias de sem-terra que ocupavam a Fazenda Boa Esperança, em Anhembi, a 235 quilômetros de São Paulo, desde 21 de junho, deixaram a fazenda hoje pela manhã. Menos de dez minutos depois de aceitar a ordem judicial para sair elas invadiram a fazenda Ribeirão dos Pires, já no município de Piracicaba. Os 286 policiais militares mobilizados para fazer o despejo assistiram, a cerca de 500 metros, a nova ocupação.
A fazenda invadida hoje tem 570 hectares e 1.400 cabeças de gado. O comandante do Policiamento de área do Interior-7, coronel Josué álvares Pintor, disse que a polícia não tinha como impedir a nova ocupação. "A ordem de despejo refere-se apenas a esta fazenda." O proprietário da área invadida, Alfredo David, protestou: "A Polícia Militar é estadual, não pode ficar de mãos amarradas enquanto eles descumprem a lei."
Os sem-terra são do grupo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) que invadiu, no começo do ano, a fazenda Engenho Dágua, em Porto Feliz, e há dois meses, bloqueou a Rodovia Castelo Branco para saquear caminhões de alimentos, parando o Fórum da cidade com protestos contra a prisão de militantes. Eles não se assustaram com a chegada dos policiais. Enquanto o contingente dos batalhões de Botucatu, Avaré, Piraju e Itapetininga, com o apoio da Cavalaria de Sorocaba e Avaré, Canil e Tropa de Choque, alinhava-se na parte alta do terreno, o líder do grupo, João Paulo Rodrigues, negociava com os comandantes, o coronel Pintor e o major João Francisco Antunes, do 12º Batalhão de Botucatu. Na região - "Como ninguém se preocupou em conseguir um local para as famílias, vamos sair dessa fazenda, mas ficamos na região", afirmou Rodrigues. Segundo ele, os sem-terra haviam aprovado em assembléia a transferência do acampamento para a área urbana de Anhembi. "Mas eu me posicionei contra, pois sei que a cidade não comporta tanta gente." Outra hipótese seria a entrada em uma fazenda de mais de 300 hectares da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) e cedida para a Escola Superor de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq), de Piracicaba.
"Falamos com a direção da Esalq, mas eles, além de não cederem uma parte das terras, ainda entraram com pedido de interdito proibitório contra nós", alegou. A fazenda foi descartada, segundo ele, porque diretores da Esalq alegaram que as terras estão sendo usadas para experimentos agropecuários. Então foi decidida uma nova ocupação.
Saída - A decisão foi tomada depois de várias assembléias e de tensas negociações com a PM. Numa delas, o oficial de Justiça Paulo Trevisano leu a ordem de despejo dada pela juíza de Conchas, Lígia Cristina Possas. O sinal de que a saída seria pacífica foi dada pelo gesto do sem-terra Daniel Aluísio de Freitas, que escalou o mastro e arriou a bandeira do MST na entrada do acampamento.
Cantando e gritando palavras de ordem, um grupo de 450 militantes armados com enxadas, foices e facões, saiu em direção à estrada. Depois de uma caminhada de 300 metros, e de cruzar o riacho na divisa entre Anhembi e Piracicaba, eles pararam e arrebentaram, a golpes de facão, a cerca da Fazenda Ribeirão dos Pires, também conhecida como Fazenda do Turco. "Se não tem como fazer pela lei, vamos fazer na ilegalidade", disse o líder Rodrigues, fincando uma bandeira do Brasil no chão. "Se nos tirarem daqui ocupamos outra e, se isso for desobediência civil, podem chamar o MST de desobediente", afirmou. Os sem-terra atearam fogo para limpar o mato e, meia hora depois, erguiam os primeiros barracos.
Interdito proibitório - Não demorou para que o proprietário aparecesse no local, sobrevoando o acampamento de helicóptero. Os vôos rasantes do aparelho irritaram os sem-terra
que brandiam as foices no ar. David pousou perto dos policiais e, apresentando um mandado de interdito proibitório dado pela justiça de Piracicaba, queria que o comandante Pintor usasse as tropas para retirar os invasores de suas terras. "Há alguns dias eles mataram meus bois, agora estão destruindo matas ribeirinhas."
O coronel explicou que a PM não poderia agir sem um novo mandado de despejo. "Vamos permanecer aqui para assegurar a retirada total dos barracos da fazenda desocupada." O proprietário da Boa Esperança, Osvaldo Calcidoni, não ficou satisfeito com o desfecho, após 31 dias de ocupação de sua fazenda. "Eles vão continuar invadindo minhas terras e causando estragos." Ele disse que irá acionar "quem de direito" para obter indenização pelos prejuízos que sua propriedade sofreu.

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