Buritis, MG, 21 (AE) - Hoje pela manhã os militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) deixaram a frente da fazenda Corrégo da Ponte, do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis , onde estavam acampados desde terça-feira (16). Os assentados e sem-terra de cinco municípios da região reivindicam recursos para o plantio e ameaçam invadir a agência do Banco do Brasil do município caso o dinheiro não seja liberado.
A decisão de deixar o local foi tomada sábado, após uma comissão negociar com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. O Incra condicionou a liberação de recursos (cerca de 3 milhões) à saída do local.
"Vamos aumentar o poder de força e engrossar o movimento se o governo não cumprir sua parte", disse Gilmar de Oliveira, de 23 anos, um dos líderes do movimento, do MST do Distrito Federal. Antes de levantar o acampamento os agricultores devolveram ao administrador da fazenda, Wander Gontijo, as 100 sacas de adubo e as cinco sacas de soja que haviam saqueado na quinta-feira.
A polícia militar fez um boletim de ocorrência registrando a entrega dos produtos. "Vamos devolver porque o saque foi uma maneira de forçarmos a negociação", disse Gilmar. Segundo Gontijo, parte do adubo seria inutilizado por ser perecível. O administrador calcula o prejuízo em mais de R$ 3 mil.
Reunião - Da fazenda os militantes seguiram para o pátio da prefeitura em Buritis, onde teriam uma reunião com a gerente da divisão de conflitos agrários do Incra, Maria de Oliveira, mas o avião em que estava não conseguiu opousar por causa do mau tempo e a reunião foi cancelada.
Os militantes ameaçam entrar na Justiça para pedir o ressarcimento aos cofres públicos pelos gastos com a manutenção dos 250 homens do Exército na fazenda. "A sociedade não pode pagar por isso", disse Gilmar. "Se não daqui a pouco todo latifundiário vai querer o Exército para defender suas propriedades." Eles alegam que o presidente deve ressarcir a União porque a fazenda é uma propriedade privada. "O governo está gastando mais para manter o Exército na Fazenda do que os recursos que estamos pedindo."
Eles tomaram conhecimento de que a fazenda não está no nome do presidente depois que o juiz do município de Arinos, José Antônio Maciel, expediu um interdito proibitório de ocupação da fazenda e o filho do presidente, Paulo Henrique Cardoso, entrou com ação contra o MST e os coordenadores regionais Gilmar e Jorge Augusto Xavier de Almeida, por causa do saque de quinta-feira.
Metade da fazenda pertence ao empresário paulista Jovelino Mineiro de Carvalho, 70% da outra metade pertence à filha mais velha do presidente, Luciana, e 30% à filha Beatriz. O filho de Fernando Henrique, Paulo Henrique, possui uma outra Fazenda, a Ponte, de 700 hectares, ao lado da Córrego da Ponte.
Desde sexta-feira, 250 soldados do Batalhão da Guarda Municipal do Exército, com armas, coletes a prova de balas, capacetes e gás lacrimogêneo , protegem a Córrego da Ponte .De acordo com o major Cláudio Montenegro, mesmo com a desmobilização do acampamento, não há previsão para a retirada do Exército do local, que conta com o reforço de dez agentes da Polícia Federal e 30 policiais militares na segurança fora da fazenda.
Saída - A prefeitura de Buritis enviou cinco ônibus ao acampamento para a retirada das famílias. Havia no local 18 barracas e cerca de 120 pessoas acampadas - 40% mulheres e crianças. De acordo com Brígida Alves da Silva, da coordenação do movimento, mulheres e crianças participaram do acampamento, dormindo em barracas na chuva, porque a situação nos assentamentos é a mesma. "A luta é conjunta e incluiu toda a família", disse. Segundo Gilmar, dos 22 assentamentos, apenas seis têm casas.
As famílias que acamparam em frenta à fazenda do presidente representam 22 assentamentos e dois acampamentos de cinco municípios da região. Eles querem a liberação de R$ 3 milhões em recursos do Programa Nacional de Agricultura Familiar
Pronaf, que, segundo eles, deveria ter sido liberado em junho. Os assentados alegam que, por causa do atraso do governo, eles correm o risco de perder a safra. "Há uma época para plantar e essa época termina dia 30", disse Gilmar. "Se não plantarmos agora corremos o risco de perder a safra, como aconteceu no ano passado, quando o governo só liberou os recursos em dezembro", disse.
Segundo ele, 16 assentamentos da região perderam toda a plantação de grãos por questões climáticas, por causa do atraso na liberação dos recursos. "Parece que o governo não está levando a sério", disse. O gerente do Banco do Brasil de Buritis, Walter Lagos, informou que até sexta-feira o banco só havia recebido R$ 124 mil, apenas para um dos 22 assentamentos, o Barriguda 2. Além disso, na semana passada, R$ 30 mil foram liberados para o assentamento Nova Itália. No sábado, o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, disse que os recursos seriam liberados, mas não disse quando.

mockup