Sem-terra de Cascavel tentam consolidar ocupações da região
Paulo Pegoraro
De Cascavel
Lavradores sem-terra estão tentando tornar irreversíveis as ocupações no município de Cascavel, que caracterizam as principais ações do gênero já registrada no município. Inicialmente, em maio, cerca de mil famílias haviam ocupado a Fazenda Refopas, de 554 hectares, a 35 quilômetros da cidade. O acampamento foi inchando paulatinamente, com a chegada de novos contingentes de várias regiões (inclusive brasiguaios) e, a partir dele, em agosto, 250 famílias dissidentes formaram novo acampamento que classificam como provisório, mas outras quinhentas famílias já ocuparam área vizinha, de mil hectares.
As terras, que originalmente compunham um latifúndio, pertencem a Maria Elisa Festugatto, que já obteve ordem de reintegração de posse não cumprida. Apenas os dissidentes manifestam intenção de sair para outro acampamento provisório, mas os demais estão dispostos a permanecer na terra, mesmo com o alerta do Incra de que processos de desapropriação não incluirão áreas invadidas. Tanto não vamos sair que amanhã iniciaremos o plantio, disse ontem Oscar Mello, 39 anos, um dos coordenadores do acampamento original.
Também será iniciado o plantio (de milho) no segundo acampamento, enquanto os dissidentes aguardam transferência do Incra para outro local. Outras providências tomadas pelos coordenadores indicam que eles tratam mesmo de tornar as ocupações irreversíveis.
No acampamento original, um barraco foi montado para funcionar como escola para oitenta crianças, das quais trinta ainda não estão alfabetizadas, segundo Gilberto de Moraes, 24 anos, sem-terra que tem o 2º grau completo e atua como professor.
Ontem, uma equipe da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Cascavel estava no local, fazendo vacinação em massa de crianças contra meningite, hepatite viral e bacteriana, sarampo e paralisia infantil, e de adultos, contra tétano e difteria. As mães receberam carteirinhas para o controle das imunizações das crianças. Além das doenças transmissíveis, há também preocupação com a diarréia, que tem atingido a maior parte das crianças.
Oscar Mello relata que nunca foi enviado um médico para a área. Segundo ele, a prefeitura só enviou médico para o acampamento dos dissidentes, mês passado.
Ontem, também as famílias receberam a visita de duzentos alunos de 1º e 2º graus da escola do Reassentamento São Francisco de Assis, onde estão instaladas famílias que tiveram terras alagadas pela barragem de Salto Caxias. A iniciativa da visita foi da direção da escola e da Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Iguaçu (Crabi).
O coordenador, José Uliano Camilo, disse que é importante as crianças e os jovens saberem da luta de famílias pela terra. A Crabi procura estimular a permanência de jovens no campo, inclusive para que não se mudem para as cidades e depois acabem indo para barracos de sem-terra, afirma Camilo.





