Maurício Borges
De Ivaiporã
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) encontrou ontem uma forma diferente de protestar contra a lentidão do processo de reforma agrária no Estado. As cerca de setecentas famílias, que estão acampadas há mais de 3 anos na Fazenda Corumbataí, conhecida como ‘‘7 Mil’’, decidiram soltar 567 cabeças de gado da propriedade, em Ivaiporã (150 km ao sul de Apucarana).
Os acampados exigem a imediata desapropriação da 7 Mil pelo Incra e assentamento das famílias. Ontem, o MST anunciou que, se isso não acontecer nos próximos dias, os sem-terra pretendem derrubar as cercas da fazenda e soltar mais 4 mil cabeças de gado. Eles afirmaram durante o protesto de ontem que estão preparados para enfrentar a polícia se houver tentativa de desocupação da fazenda.
A boiada solta ontem em Ivaiporã saiu da Fazenda Corumbataí no início da manhã e, às 10 horas, já estava na BR-466 (trecho Ivaiporã-Manoel Ribas), em frente ao Parque de Exposições da Sociedade Rural Centro do Paraná (Sorcep), em Ivaiporã. Em todo o trajeto, de aproximadamente 35 km, os animais foram conduzidos pelos próprios sem-terra, montados em cavalos e portando bandeiras do MST.
Os sem-terra também armaram barreiras em dois trechos da rodovia, atravessando caminhões, e colocando toras e pedras sobre a pista. Informada sobre o protesto do MST, a Polícia Militar de Ivaiporã e a Polícia Rodoviária de Apucarana, bloquearam a BR-466 nos dois sentidos. O trânsito ficou paralisado por uma hora e meia.
A princípio, os organizadores do protesto pretendiam soltar o gado na cidade, mas diante do risco de acidentes resolveram abandonar a boiada dentro do Parque de Exposições da Sorcep.
Com cerca de 500 manifestantes do MST reunidos em assembléia, em frente ao parque da Sorcep, Vilmar da Silva, coordenador do MST na região, justificou os motivos do protesto. Ele disse que os sem-terra estão acampados há mais de 3 anos na 7 Mil, que já tem dois laudos de improdutividade dados pelo próprio Incra, aguardando a desapropriação e assentamento.
‘‘Estamos sendo acusados de roubo de gado e sofrendo uma perseguição sistemática da polícia, por isso resolvemos soltar o gado’’, afirmou Vilmar.
Segundo ele, o gado também está prejudicando os sem-terra, destruindo toda área com cultivo de mandioca, milho e feijão.
O líder do MST lembrou ainda que todo café, feijão, mandioca e milho produzidos pelos sem-terra estão sendo apreendidos pela polícia na região, quando sai da fazenda. ‘‘Ainda ontem, seis sem-terra receberam intimações do delegado de Ivaipor㒒, revelou ele, frisando que os acampados estão insatisfeitos e dispostos a adotar posições mais radicais.
Vilmar concluiu alertando que se houver tentativa de reintegração de posse e desocupação da fazenda, as famílias vão resistir. ‘‘Tudo que temos está aqui, vai haver enfrentamento e pode acontecer uma tragédia’’.Acampados levam mais de 500 cabeças de gado a Ivaiporã para protestar contra lentidão da reforma agrária
Odair StraliottPressão Sem-terra que ocupam a fazenda há mais de três anos, armaram barreiras na estrada, atravessando caminhões e colocando toras e pedras na pista

mockup