O sem-terra Claudiomiro
Santutti confessou ontem à polícia ter participado do assassinato dos sem-terra Sílvio Rodrigues de Souza, de 25 anos, e Romildo da Silva, de 36 anos, na quarta-feira, a 25 quilômetros de Rio Brilhante, no Mato Grosso do Sul. Santutti disse ter organizado e feito a tocaia, acusou cinco seguranças pelas mortes, mas apontou como mentor intelectual do duplo homicídio o empresário Cláudio Antonio Penhavel.
Os corpos de Souza e Silva foram encontrados dia 1º com
as mãos amarradas para trás, sinais de espancamento e várias perfurações de balas, dentro de um automóvel Voyage. Santutti atrai os dois sem-terra e os levou até o local da execução.
Penhavel é proprietário da Comando de Ações Especiais em Segurança (COES), com sede em Campo Grande, empresa que presta segurança a dezenas de fazendas e fazendeiros no Mato Grosso do Sul. Entre elas, está a Engenho Novo, onde as duas vítimas foram trancadas em um quarto até a execução.
Sete pessoas envolvidas direta e indiretamente do crime
tiveram a prisão preventiva decretada. Estão presos, Cláudio Penhavel, Santutti e mais cinco agentes de segurança empregados da COES - nomes estão sendo mantidos em sigilo para não prejudicar as investigações. Durante toda a manhã de ontem, os presos foram ouvidos na Delegacia Regional de Polícia Civil. À tarde houve audiência com mais seis sem-terra que teriam participação indireta no caso.
Santutti confessou que transportou as duas
vítimas do acampamento de sem-terra instalado na margem da BR-163, a 10 quilômetros do centro da cidade, até a Fazenda Engenho Novo, no distrito de Prudêncio Thomaz, onde os trancou em um quarto com as mãos amarradas às costas. Isso, por volta das 13 horas de quarta-feira. Às 19 horas do mesmo dia, Santutti levou as vítimas, em seu automóvel modelo Voyage, até a localidade de Aroeira. Lá, deixou os dois sem-terra entregues a cinco agentes da COES.
Em seguida, foi prestar queixa na delegacia de polícia,
afirmando que ladrões roubaram o Voyage no distrito de Prudêncio Thomaz. A polícia investigou a falsa denúncia e acabou descobrindo o duplo assassinato.
Souza e Silva foram mortos com três tiros na nuca,
disparados à queima-roupa por dois dos agentes presos. O empresário nega participação no crime, mas testemunhas o acusam de ter prometido a Santutti R$ 7 mil para executar os sem-terra; R$ 2 mil seriam pagos logo após o assassinato, e R$ 5 mil, até o final do mês, segundo depoimentos dos acusados.
Pela manhã os ouvidores agrários do Estado e
Nacional, Aleixo Paraguassú e Gersino José da Silva, estiveram reunidos com a liderança dos sem-terra, no Fórum de Rio Brilhante. Os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra alertaram sobre o fato de que os dois assassinados haviam reclamado, várias vezes, diretamente à Secretaria de Segurança Pública, que seriam mortos. Aleixo Paraguassú disse que as denúncias não chegaram ao seu conhecimento.
Egídio Brunetto, coordenador estadual do MST, disse que, em Rio Brilhante, as ameaças de morte contra sem-terra são constantes. Ressaltou, ainda, que as agressões físicas e verbais ultrapassam o limite de tolerância. Em algumas localidades, disse, os fazendeiros montam guaritas na estrada e até colocam bombas sob pontes para explodir caminhões que transportam sem-terra.
O ouvidor agrário nacional, Gersino da Silva, disse que
vai tomar todas as providências para investigar punir os culpados. Ele afirmou que vai solicitar à Polícia Federal a instalação de inquérito para apurar a legalidade da empresa de segurança. Os sem-terra disseram que os seguranças da COES andam ostensivamente armados, até com calibre 12, e têm fardamento muito mais impressionante do que o da própria Polícia Militar. Gersino explicou que esse aspecto também será investigado, acrescentando que o cidadão tem pleno direito de segurança particular, dentro de seus limites próprios. Quando se trata da segurança pública, é missão do governo.

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