Johannesburgo - Centenas de camponeses do Movimento sul-africano dos Sem Terra começaram a chegar ontem a Johanesburgo, onde acontece a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável (CMDS), para reivindicar o direito à terra que foi retirado pelo regime colonial e o ''apartheid''.
Segundo o Movimento dos Sem Terra sul-africano (LPM, em inglês) e o Comitê Nacional da Terra, uma coalizão de dez organizações, ''não se pode erradicar a pobreza e caminhar para o desenvolvimento sustentável enquanto 85 por cento da terra sul-africana é propriedade de 60.000 agricultores brancos''.
O presidente da LPM, Patrick Mojapelo, disse à EFE que ''o governo democrático de 1994 prometeu ao povo que corrigiria a política do passado e devolveria a terra a seus proprietários negros''.
''Mas o processo está muito lento, as terras continuam nas mãos dos brancos e nós, camponeses, acreditamos que o Governo está perpetuando as práticas do regime anterior'', acrescentou Mojapelo.
Segundo o LMP, o Congresso Nacional Africano prometeu transferir em cinco anos pelo menos 30 por cento da terra produtiva ''à maioria despossuída'', mediante um programa de restituição que dá direito à terra ou a uma indenização a qualquer pessoa cuja propriedade foi confiscada pelas leis raciais discriminatórias aprovadas após 1913.
Mas até hoje, acrescenta a organização, apenas 2 por cento dessa terra produtiva foi repassada.
O professor Ben Consins, da Universidade de Western Cape, explicou que ''a concentração da terra nas mãos de poucos continua sendo uma realidade na África do Sul pós apartheid'', e atribuiu isso à ''adoção, pelo Governo, de políticas neoliberais que tendem a favorecer os proprietários''.
No início da manhã de ontem, ônibus carregados de camponeses começaram a chegar ao Acampamento dos Sem-Terra, situado em um antigo parque de diversões fechado há dez anos, e a cerca de 15 quilômetros da sede da CMDS.
''Até 1995 tive dois hectares nos quais plantava milho, mas a prefeitura tirou-os de nós, e agora só tenho a pensão do governo, de 600 rand ao mês (60 euros), para manter minha esposa e quatro filhos'', relatou December Mona, de 55 anos, que viajou da província de Eastern Cape até Johannesburgo.
Os organizadores do acampamento esperam reunir mais de 5.000 camponeses, entre eles membros do Movimento dos Sem-Terra do Brasil e os zapatistas mexicanos.
De Honduras, El Salvador, Colômbia e Espanha chegaram membros da organização Via Camponesa, presente em 50 países.
''Esta é uma luta contra o neoliberalismo'', disse o espanhol Paul Nicholson, membro da Confederação de Agricultores e Criadores de Gado (Coag) e da Via Camponesa.
''Disseram que temos direitos e queremos que sejam cumpridos'', reclamou Mangaliso Kubheka, do LPM, que elogiou a política adotada pelo presidente do Zimbábue, Robertugabe, de desocupar terras tomadas por fazendeiros brancos depois da independência do país.
Sábado, os sem-terra pretendem fazer uma passeata até o complexo de luxo onde acontecem os debates oficiais, mas até agora não houve autorização do Governo para a manifestação.
Apesar da falta de permissão, os camponeses garantem que farão a passeata. Thandi Makinama, uma das líderes do LPM, afirmou: ''Não temos medo e vamos lutar por nossos direitos''.
Mangaliso Kubheka se queixou de que ''o movimento está sendo espionado pelas autoridades, que colocaram escutas em nossos telefones e prenderam a nossa chefe de imprensa''.

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