Sem-terra chegam a Brasília e devem ficar até o dia 12
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segunda-feira, 04 de outubro de 1999
Por Eugênio Melloni 
Brasília, 05 (AE) - Os sem-terra que participam da Marcha Popular pelo Brasil, com chegada a Brasília prevista para quinta-feira (07), deverão permanecer na capital federal até a próxima terça-feira (12), quando participarão de manifestações do Grito Latino-americano dos Excluídos. Entre os dias 8 e 10, os integrantes da marcha vinculados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) discutirão novos rumos e estratégias do movimento em face da conjuntura econômica, em um evento chamado de Assembléia dos Lutadores do Povo Brasileiro.
Após o dia 12 os 1.100 integrantes da marcha, procedentes de 23 Estados, começarão a voltar para casa de ônibus. Participam da iniciativa, que tem como principal objetivo exigir mudanças na política econômica e o rompimento com o Fundo Monetário Internacional, representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da Central de Movimentos Populares (CMP), das Pastorais Sociais da Igreja Católica, além de grupos menores, como os atingidos por barragens.
Democracia - Depois de fazer cerca de 2 mil debates em igrejas, universidades e associações de moradores, os cerca de 1.100 integrantes da marcha deverão discutir, na assembléia, um "projeto de democracia avançada, que não seja essa democracia formal, em que a população vota e o político esquece de quem votou". O coordenador do MST em Santa Catarina, Vilson João Santin, explica que há um descrédito da população em relação à política como vem sendo feita, "em que o povo é um mero espectador do jogo político". Segundo ele, "é preciso encontrar formas de ampliar a participação coletiva e o controle social do governo".
Outros integrantes do MST, que preferiram não se identificar, acrescentaram que o descrédito atinge até os partidos de esquerda, "que não estão representando os anseios da população." Os militantes do MST trabalham com a expectativa de que a demora na liberação de recursos para a reforma agrária deverá resolver um velho problema do movimento: mobilizar os trabalhadores rurais assentados. "Já tem assentado bloqueando agências do Banco do Brasil no Pontal do Paranapanema", disse um militante do MST.
Hoje a marcha recebeu o reforço de dois ônibus, com cerca de 80 manifestantes ao todo, provenientes do Paraná. A expectativa é a de que entre 6 mil e 8 mil manifestantes, vindos de vários Estados, engrossem as manifestações até quinta. Os participantes da marcha percorreram hoje durante a manhã, os cerca de 28 quilômetros que separam Luiziânia, onde pernoitaram na segunda-feira, de Valparaíso, município a 45 quilômetros de Brasília. Em Valparaíso, os sem-terra ficarão alojados no CIAC Tancredo Neves. Os manifestantes planejam retomar a caminhada a partir à 6 horas desta quarta-feira em direção ao Núcleo dos Bandeirantes, cidade-satélite distante 15 quilômetros de Brasília, onde deverão acampar até quinta.
Ambulante - Abrindo alas com larga distância do restante dos participantes, o vendedor ambulante Antônio Costa, de 51 anos, caminhava feliz, apesar do peso do carrinho de madeira carregado com latinhas de refrigerantes. Costa, que aderiu à caminhada ainda no Rio, onde faz ponto em frente o Maracanã, disse que o lucro com a venda dos refrigerantes foi ínfimo. "Vendi pouco, mas a experiência de ter participado da caminhada não tem preço", disse Costa, que muitas vezes dorme nas ruas no Rio por não ter dinheiro para voltar para casa. "Se o movimento me aceitar, vou aderir à luta."
Mas Costa é uma exceção, em idade e no grau de envolvimento com a questão fundiária, entre os participantes. A coluna, em sua grande maioria, é formada por jovens com 20 a 30 anos de idade, vinculados a movimentos sociais e que estão tendo
na marcha, uma espécie de iniciação. A marcha avança em um ritmo acelerado, adquirido em mais de 70 dias de caminhadas de mais 20 quilômetros por dia. Em Luiziânia, muitos encontraram disposição para disputar um campeonato de futebol na segunda-feira, após quase 30 quilômetros de caminhada. Apesar do exercício diário, são vários os casos de cãibras e dores musculares atendidos pelas duas ambulâncias que acompanham o grupo, cedidas pelo governo de Goiás.
De acordo com o MST, ocorreram 200 baixas, a maioria resultado de problemas de saúde causados pelo frio na passagem pelo Rio e Minas Gerais.


