Sem-terra alegam fome e podem fazer novos saques em Porto Feliz
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sexta-feira, 28 de maio de 1999
Por José Maria Tomazela 
Porto Feliz, SP, 29 (AE) - O coordenador do Acampamento "Nova Canudos", João Paulo Rodrigues, disse hoje que os sem-terra podem realizar novos saques caso o governo não providencie a remessa de cestas básicas para as 1.200 famílias acampadas na beira da Rodovia Castelo Branco, em Porto Feliz. Segundo ele, o alimento existente no acampamento não está sendo suficiente para alimentar as famílias. Quem mais sofre, disse
são as mais de 350 crianças que vivem nos barracos de lona. Na noite de quinta-feira, os sem-terra interceptaram e saquearam três caminhões de gêneros alimentícios na rodovia. O acampamento foi ocupado por tropas da Polícia Militar, ontem (28), para a recuperação da parte da carga roubada - carne bovina, macarrão e batatas. Vinte sem-terra foram presos durante a operação. "Levaram a nossa comida mas não vamos ficar olhando as crianças chorando de fome", disse Rodrigues.
Hoje, entidades ligadas à Igreja e sindicatos levaram cestas básicas para os acampados, mas em quantidade suficiente para garantir a alimentação por um ou dois dias. Eles esperavam novas doações, mas Rodrigues lembrava um compromisso assumido por representantes do governo no acordo para a desocupação da Fazenda Engenho Dágua, dia 17 de fevereiro. "Foi prometido que todas as famílias teriam cestas básicas." A sem-terra Luiza Nazareno, que se agarrou a um balde com pedaços de carne durante a ação da polícia, lamentava hoje o fato de terem levado a comida. "Tenho três filhos e uma neta e não sei o que será deles." Outra sem-terra, Raquel Luzia Ferreira da Silva, que enquanto os alimentos eram recolhidos, chorava com um bebê no seio, recebeu uma caixa de leite.
Dos 20 sem-terra presos durante a operação, apenas quatro tinham sido libertados até a manhã de hoje, por falta de provas. Treze continuavam presos na cadeia de Porto Feliz - um era procurado por homicídio - e três, mulheres, estavam no Presídio Feminino de Votorantim. Entre estas, a sem-terra mais velha do acampamento, Maria Dionísia dos Santos, de 75 anos. Maria Dionísia passou mal na prisão, sendo atendida pelas carcereiras. Ela vinha recebendo a solidariedade e atenção das outras presas. Entre os que continuavam presos estava o professor universitário Marcelo Buzzetto, detido na madrugada de ontem (28) sob a acusação de ter participado dos saques.
Ele alegou inocência mas foi apontado pelo motorista de um caminhão saqueado. Os sem-terra ameaçam realizar protestos nas portas das cadeias de Porto Feliz e Votorantim se todos os presos não forem libertados até segunda-feira (31).
O coordenador do Movimento dos Sem-Terra (MST), Gilmar Mauro, disse que o movimento vai entrar com ações contra a juíza Daniela Bortoliero Ventrice, de Porto Feliz, por ter decretado sua prisão, na semana passada. "Ela será processada por abuso de poder e por danos morais", afirmou. Ele acusou a juíza de perseguir os sem-terra. Foi dela a ordem de busca e apreensão dos alimentos saqueados. Antes, dera liminar para o despejo dos sem-terra da Engenho Dágua. Segundo informações de funcionários do Fórum, a juíza estaria sendo transferida da Comarca em razão de ameaças de morte que tem recebido de traficantes de drogas. A juíza tem sido rigorosa em ações contra os traficantes e, por causa das ameaças, comparece ao Fórum acompanhada de uma escolta. Hoje não teve expediente e a juíza não foi encontrada.
Mauro contou também que, até a ocorrência dos saques, estava praticamente definida a mudança do acampamento para a região de Bauru. Segundo ele, naquela parte do Estado a possibilidade do assentamento das famílias é maior em razão da disponibilidade de terras. "Mas o assunto voltará a ser discutido", disse. Ele não descartou a hipótese de invasão de terras. "A razão da existência do acampamento é a terra."


