ITAQUIRAÍ - As cerca de 2.300 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) que estão acampadas na Fazenda Santo Antônio, do Grupo Bertin, começam a deixar a área segunda-feira. A desocupação foi acertada ontem em reunião em Campo Grande, no fórum criado para buscar uma solução para a crise no extremo sul de Mato Grosso do Sul.
A retirada vai ser pacífica, sem a presença a polícia. O acordo prevê o cadastramento dos sem-terra para uma seleção de futuros candidatos a lotes de terra no Estado. O transporte dos acampados será feito pelo governo. Os sem-terra concordaram em deixar a Santo Antônio, uma propriedade de 25,5 mil hectares que tem título de posse de 19,9 mil hectares, desde que permaneçam na região.
‘‘As famílias devem ficar em Naviraí ou Itaquira풒, explicou Egídio Brunetto, dirigente nacional do MST, que participou da reunião. Brunetto, que no mês passado foi um dos três representantes do MST a receber o Prêmio Rei Balduíno, concedido ao movimento na Bélgica, disse que o acordo fechado com o governo estadual e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ‘‘é satisfatório’’.
O secretário Celso Martins, coordenador do fórum, explicou que depois do cadastramento, muitas famílias devem retornar às cidades de origem. ‘‘Tem gente que está lá mas já tem lotes’’, argumentou. A principal dificuldade na negociação até agora era acertar uma área para a colocação dos acampados e acertar a vistoria da fazenda. Os sem-terra não aceitavam ser transferidos para Japorã, conforme o Incra propunha. No encontro, a solução encontrada foi manter os acampados na região.
‘‘Avançamos também com o compromisso do Incra de dar prioridade para assentamento depois da vistoria da fazenda e da medição’’, adiantou Brunetto. Pelo acordo, os técnicos do Incra devem fazer em dois meses um laudo sobre a produtividade da Santo Antônio. Depois da checagem, os técnicos passam a verificar o tamanho da propriedade para localizar o excesso de terras que ultrapassa os 5,5 mil hectares. Além disso, a entidade vai acelerar avaliação de outras duas fazendas, a Savana e a Indiana, em Japorã, que seriam usadas para assentar os sem-terra.
No final da discussão, o Incra se comprometeu também a fornecer alimentação e lona para o novo acampamento. Durante a tarde de ontem, o governo ainda escolhia a área para a qual os caminhões vão levar os sem-terra. Para o secretário Martins, a situação deve voltar a se acalmar na região depois do acordo. ‘‘No início tivemos dificuldades de aproximção com os líderes’’, esclareceu. Segundo Martins, o canal de conversação só foi aberto com a criação do fórum envolvendo outras entidades.
Depois do acerto, o governo descarta o uso da força pela Polícia Militar na desocupação. O juiz da comarca de Naviraí, Danilo Burim, havia determinado a reintegração de posse um dia após a invasão. Mas alegando necessidade de negociação para uma retirada pacífica, o Estado não cumpriu a ordem judicial. ‘‘Essa é a trigésima desocupação pacífica’’, afirmou Martins. O Estado tem hoje cerca de três mil sem-terra necessitando de lotes por meio de reforma agrária. Levantamento do governo feito em outubro apontava 1.800 famílias nessa situação. Mas Martins calcula que o número aumentou bastante. A meta de assentamento do governador Wilson Martins (PMDB) para este ano era de duas mil famílias. ‘‘Ampliamos para 2,5 mil, mas acho tem tem até mais’’, disse.

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