Sem-terra acampam no Incra-SP
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de novembro de 1997
Agência Estado São Paulo 
Edu Garcia/AE
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
Sem-terra fazem fila para almoçar em frente à sede do Incra em São Paulo. MST quer apressar assentamentosCerca de 500 assentados e sem-terra estão acampados, desde a manhã de ontem, no asfalto em frente a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em São Paulo, para exigir a liberação imediata de recursos do Programa de Crédito Especial para a Reforma Agrária (Procera), administrado pelo Banco do Brasil. Querem, também, que o órgão acelere a desapropriação de terras para assentar 5,6 mil famílias que hoje vivem em acampamentos pelo interior do Estado.
Uma frota de 12 ônibus trouxe pessoas assentadas ou acampadas em sete regiões do Estado: Pontal do Paranapanema, Promissão, Andradina, Barretos, Itapeva, Rancharia e Grande São Paulo. Viemos negociar, mas se não houver bom senso traremos mais gente do interior e vamos invadir, avisou Gilmar Mauro, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
O primeiro ônibus dos manifestantes chegou às 5 horas de ontem. O último grupo a chegar, por volta das 8 horas, estava reunido em seis ônibus vindos do Pontal de Paranapanema. Eles trouxeram alimentos suficientes para 300 pessoas durante três dias: 300 kg de arroz, 60 kg de feijão, 100 kg de macarrão, 20 latas de óleo, 10 kg de café, 20 kg de açúcar, 5 kg de sal. Cada grupo trouxe sua provisão.
O grupo do acampamento Horto Vergel, em Mogi Mirim, trouxe
apenas 10 kg e outros itens em pequena quantidade e teve que passar o boné para recolher dinheiro entre os transeuntes para comprar um quilo de carne. Não vai dar nem pro cheiro, previu Maricleide Alves, que veio com o marido e a filha, Yara Cristina, de três anos, uma das poucas crianças presentes à manifestação. Maricleide não conseguiu trazer leite para a menina, que contentava-se com biscoitos salgados. Ela é muito boazinha, já se acostumou à vida dura dos pais, explicava a mãe.
Os fogões a gás foram instalados em frente ao Incra e nas calçadas dos prédios vizinhos. Uma grande lona preta cobriu toda a extensão da rua, em uma improvisação de barraca. Colchonetes, cobertores e sacos de alimentos congestionaram a rua.
Segundo Gilmar Mauro, em 33 anos de existência o Incra de São Paulo assentou apenas 2 mil famílias no Estado. Outras 7.100 foram assentadas pelo governo do Estado. Temos um acampamento em Paulicéia que já completou quatro anos sem regularização, apesar da área ter sido desapropriada pelo Incra, relatou.


