Sem paixões, argentinos escolhem novo presidente De ARIEL PALACIOS, Especial para a Agência Estado
Buenos Aires, 23 (AE) - Sem as paixões políticas que caracterizaram a vida argentina das últimas oito décadas, cerca de 24 milhões de argentinos estão habilitados a votar amanhã (24) para escolher seu presidente. Os principais candidatos são Fernando de la Rúa, da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso; Eduardo Duhalde, do partido do governo, o Justicialista (peronista); e o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo, da Ação Pela República, além de sete concorrentes de partidos menores.
Sem o entusiasmo que caracterizou as eleições precedentes, os analistas consideram que os argentinos desta vez são levados às urnas pelo cansaço com a corrupção e o desemprego, resultados de uma década de governo do presidente Carlos Menem.
Segundo as últimas pesquisas, o grande favorito é De la Rúa, com 51% das intenções de voto, enquanto Duhalde tem 34%. Cavallo, candidato do partido que ele próprio criou, obteria 11,8%%, transformando-se na terceira força partidária do país, com um provável papel futuro de fiel da balança no Parlamento.
Dessa forma, ficaria afastada a possibilidade de segundo turno - que, na Argentina, é realizado se nenhum partido ultrapassar 45% dos votos. Mas o sistema é generoso: se um partido obtiver entre 40% e 45% e ficar 10 pontos acima do segundo colocado, já será o vitorioso.
Esta é a quarta eleição presidencial desde o retorno à democracia, em 1983. Nunca antes na história argentina houve um período tão longo de democracia ininterrupta. Se as pesquisas estiverem corretas, esta também seria a primeira derrota eleitoral presidencial do peronismo estando no poder. Em todas as ocasiões anteriores, o peronismo saiu do poder derrubado por um golpe militar. Além disso, correria o risco de igualar a derrota peronista nas eleições parlamentares de 1985, quando ficou com apenas 34,9% dos votos, o piso histórico do partido.
Outra novidade, no caso de vitória da Aliança, é que em 10 de dezembro tomará posse um governo de coalizão, experiência inédita na Argentina, caso descartem-se os primeiros meses de vida do partido peronista, que chegou ao poder em 1946 com o nome de Partido Único de la Revolución, aglomerando dissidentes de diversas agremiações, imediatamente controlados com mão férrea pelo general Juan Perón.
Na Frepaso, colega mais jovem da coalizão com a UCR, espera-se que, caso a Aliança chegue ao governo, a divisão do poder seja "relativamente" equitativa, já que um partido deve muito ao outro: a Frepaso não tinha estrutura nacional para uma disputa presidencial, algo que a UCR tem. Em troca, a UCR necessitava do "sangue novo" da Frepaso para renovar sua imagem.
Se Duhalde vencer, também haverá novidades. A primeira seria o colapso da credibilidade dos pesquisadores de opinião pública, que indicam unanimemente o atual governador da Província de Buenos Aires como inexorável derrotado. Outra seria a renovação pelas urnas, de forma pacífica, da liderança do partido peronista, que sempre teve um único líder por vez. A vitória de Duhalde causaria o imediato ostracismo de Menem, que nos últimos dois anos procurou sabotar a candidatura do governador, que já foi seu vice-presidente (1989-91). Mas a mudança de quem estará sentado no "sillón de Rivadavia", como é denominada a cadeira presidencial, não implicará em bruscas ou substanciais mudanças.
A apatia eleitoral dos argentinos tem seus motivos: pela primeira vez na história, não há caudilhos políticos para escolher. Ambos os candidatos carecem de carisma, fato que os próprios admitem, com bom humor no caso de De la Rúa, e com frustração no caso de Duhalde. A falta de propostas também desanima os argentinos.
Enquanto a disputa presidencial está praticamente definida, perdura a luta pela Província de Buenos Aires, onde estão 37% dos eleitores do país, região que fornece a base da sustentação política de qualquer presidente. Os integrantes da UCR sabem disso: eles lembram do sabor amargo que foi ter o peronista Antonio Cafiero no comando da província de 1987 a 1989.
Para De la Rúa, perder Buenos Aires significará não ostentar nas mãos de seu partido nenhuma província importante, já que nas eleições regionais feitas desde dezembro o peronismo conquistou 11 províncias, enquanto a Aliança obteve só 3. A de Neuquén ficou nas mãos de um partido local, o Movimento Popular Neuquino.
Amanhã serão escolhidos os governadores de seis províncias, das quais a única de peso é a de Buenos Aires. Para o peronismo, vencer em Buenos Aires será manter De la Rúa em relativo xeque ao longo de seu governo. A província está sendo disputada pelo atual vice- presidente da república, o peronista Carlos Ruckauf, e pela aliancista Graciela Fernández Meijide. Ruckauf foi ministro da presidente Isabelita Perón e um dos assinantes do decreto que autorizou as Forças Armadas a "aniquilar" a subversão, o que proporcionou uma macabra "legalidade" a partir do golpe de 1976, para a repressão que causou o desaparecimento de 30 mil pessoas. Um dos desaparecidos foi o filho mais velho de Graciela, Pablo, aos 17 anos.
Mais de duas décadas depois, Ruckauf e Graciela disputam o governo da principal província do país. Segundo o Centro de Estudos de Opinião Pública (Ceop), Graciela teria 39% dos votos, enquanto Ruckauf estaria em seus calcanhares, com 36,3%.





