Brasília, 28 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu hoje, no Palácio do Planalto, o candidato derrotado do PPS à Presidência da República e ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes. Foi a primeira conversa entre os dois políticos - que já dividiram espaço no PSDB - depois da maratona eleitoral do ano passado, marcada por fortes críticas do político cearense ao governo federal. A reaproximação entre Ciro e Fernando Henrique foi intermediada pelo governador do Ceará, Tasso Jereissati, amigo de ambos e um dos mais influentes interlocutores do presidente.
"Venho preocupado com a sorte do Brasil" disse Ciro, antes da conversa com o presidente. "Chego como adversário, mantendo as mesmas convicçäes e como oposição acho que é preciso ter atitude de colaboração, que não significa dizer amém", prosseguiu Ciro. O ex- ministro declarou ainda que não é possível ver o Brasil sangrar suas divisas, empurrado por especuladores, boa parte deles tubaräes brasileiros que estão fazendo o Brasil inteiro pagar, enquanto eles ganham.
Ele contou que foi chamado pelo presidente e decidiu aceitar o convite alegando que queria ouvir as suas explicaçäes sobre a condução da política econômica do governo. Ciro Gomes garantiu que foi ao Planalto "sem mágoas". "Elas ficaram em Fortaleza, no fundo de uma gaveta", declarou ele, ao avisar que chegava com o "espírito aberto".
O encontro faz parte da estratégia do presidente tucano de reaproximar-se das lideranças de oposição e ampliar o leque de interlocutores para discutir os problemas do País, iniciativa que tomou maior vulto com o agravamento da crise financeira no País. Acabada a eleição, Fernando Henrique encontrou-se com o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.
A conversa do presidente com Ciro Gomes também foi apoiada pelo presidente nacional do PPS, senador Roberto Freire (PE), que também vem sendo ouvido por Fernando Henrique. "Esse encontro não é uma aproximação, já que isso significaria diminuir a importância política do diálogo", comentou. Segundo ele, Ciro Gomes não pretende discutir os motivos que levaram ao fracasso do Plano Real e ao agravamento da crise.
"Agora não é hora de apurar responsabilidades passadas", disse Freire, frisando que o ex-ministro "vai jogar para frente", levando ao presidente propostas concretas para solucionar os problemas do País.
Desde o acirramento da crise, Ciro Gomes vem defendendo que o governo faça um controle temporário dos fluxos de transferência para o exterior de dólares pertencentes a brasileiros e uma uma negociação pactuada da dívida interna para que o governo obtenha prazos e custos mais razoáveis, permitindo imediata redução das taxas de juros de curto prazo. O ex-ministro também sugere a criação de um Fundo de Previdência Social dos Servidores Públicos, no estilo dos fundos de pensão das estatais, para equacionar o déficit da Previdência.
Segundo ele, o ideal seria criar um fundo de capitalização que autofinancie as aposentadorias dos servidores. Essa idéia é muito bem vista pelo Palácio do Planalto e um projeto sobre o assunto foi desenvolvido pelo economista André Lara Resende, que deverá voltar ao governo como assessor econômico do Planalto. A reaproximação do presidente Fernando Henrique com a esquerda vem sendo bem recebida por alguns segmentos da oposição. Roberto Freire, inclusive, já percebe uma mudança no tom do discurso do político tucano. "Antes ele centrava o seu discurso unicamente no humor e na credibilidade do País em relação ao mercado financeiro internacional", comenta Freire. "Mas agora ele já começa a mostrar uma nova visão de País".

mockup