Sem acordo, fábrica da GM no Sul pode ficar "hibernando"
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terça-feira, 06 de abril de 1999
Por Sérgio Bueno 
Porto Alegre, 7 (AE) - A entrada em operação da fábrica que a General Motors está construindo em Gravataí (RS) será retardada em no mínimo seis meses devido à intenção do governo gaúcho de rever benefícios concedidos à empresa pela administração anterior. Segundo o vice-presidente da GM no Brasil, André Bier, o atraso será maior se não houver acordo sobre as obras de infraestrutura que cabem ao estado e os financiamentos aos fornecedores sistemistas dentro de 15 a 20 dias. Neste caso, o projeto poderia ficar "hibernando", disse o executivo.
Programada para começar a produzir no fim deste ano, a fábrica não terá condições de operar antes do final do primeiro semestre do ano 2000. De acordo com Bier, as obras de infraestrutura estão atrasadas porque faltam cerca de R$ 50 milhões em investimentos do estado, sendo entre R$ 35 e 36 milhões nos sistemas viário, de abastecimento de água e tratamento de esgotos e na expansão do porto de Rio Grande. Outros R$ 14,5 milhões correspondem a financiamentos pendentes para nove dos 17 fornecedores da empresa em instalação em Gravataí.
Antes de fazer uma palestra na Federação das Associações Comerciais do RS (Federasul), o executivo garantiu que a GM pretende encontrar uma solução para o problema "nos próximos dias" e que "seis ou oito meses de atraso fazem parte do jogo". Mas se a operação demorar mais do que isso, a empresa poderá reformular os planos sobre o local de produção do veículo projetado para a unidade gaúcha. "Fechei duas fábricas em Buenos Aires (Argentina), em 1978, porque o governo se recusou a resolver nossos problemas", alertou Bier.
O governador gaúcho, Olívio Dutra (PT), porém, tem afirmado que o estado não dispõe dos recursos que ainda deveriam ser repassados à montadora. A Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais (Sedai) revela que, pelos termos do contrato de incentivos firmado com a empresa pelo governo passado, o estado teria de aportar ainda R$ 57,3 milhões, valor que não está disposto a liberar devido às dificuldades financeiras que enfrenta.
No ano passado, o Tesouro gaúcho já emprestou quase R$ 350 milhões à empresa, sendo R$ 253 milhões para capital de giro com juros de 6% ao ano, sem correção monetária e prazo de 15 anos para pagamento.
Além disso, o contrato prevê desconto do ICMS a ser recolhido pela empresa até o limite de 9% do seu faturamento mensal durante 15 anos. O dinheiro terá que ser devolido ao estado em 12 anos, depois de 10 de carência, sem juros nem correção monetária.
Desde a posse de Dutra, representantes do estado e da GM já se reuniram duas vezes para discutir pontos do acordo firmado com o governo passado. Amanhã (8) ocorrerá o terceiro encontro e
na semana que vem, mais um.
Bier, porém, afirmou que a empresa não vai renegociar o contrato, que é "juridicamente perfeito e moralmente correto". Segundo ele, os assessores jurídicos da companhia estão acompanhando o caso mas o recurso à Justiça seria o "último recurso" a ser empregado.
"Estamos discutindo opções, prioridades e outras coisas possíveis", disse o vice-presidente. Entre essas possibilidades estaria a protelação de algumas obras como as vias de acesso à fábrica.
A GM, de acordo com ele, "não tem disponibilidade financeira" de antecipar esses recursos por passou por um período "muito difícil em 1998". Ele referia-se à situação no Brasil, porque internacionalmente a empresa vai bem e teve um faturamento de US$ 161 bilhões no ano passado, o maior entre as 500 principais companhias norteamericanas, conforme a revista Fortune.
O desfecho das negociações vai determinar também se a GM continuará fazer suas importações do Mercosul pelo porto de Rio Grande, no sul do estado. Bier explicou que este é um "compromisso moral" firmado pela empresa em troca dos incentivos do governo gaúcho, mas se o problema atual não for resolvido será necessário encontrar uma "alternativa", que pode incluir o ingresso dos veículos por Santa Catarina.


