Londrina - Um adolescente de 17 anos, que teve morte encefálica diagnosticada na noite de quarta-feira no Hospital Regional João de Freitas, em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina), terá oito órgãos doados para seis pessoas que aguardavam na fila de espera de transplantes.
Quatro desses pacientes seriam submetidos a cirurgias ontem. O pâncreas e um dos rins foram levados para serem transplantados em uma pessoa de Curitiba; o outro rim e o fígado, para outro receptor da capital; o pulmão, para um paciente de São Paulo; e o coração para um homem de 32 anos de Jacarezinho (Norte Pioneiro), que estava havia cinco meses na fila. Até o início da noite de ontem, apenas a operação do paciente de Jacarezinho, realizada na Santa Casa de Londrina, havia sido concluída.
As córneas serão doadas para duas pessoas da região. As operações devem ser realizadas dentro dos próximos dias.
O adolescente havia sofrido um acidente automobilístico em Amaporã (Noroeste) e estava internado no João de Freitas desde sábado. Segundo a enfermeira Ogle Beatriz Bacchi, coordenadora da Comissão de Procura de Órgãos e Tecidos para Transplantes da Região de Londrina, não é muito comum um paciente tornar-se doador de tantos órgãos. "Vai depender da condição. Nesse caso, ele (doador) não estava doente antes do acidente. Ficou pouco tempo na UTI. Quanto mais tempo de permanência, mais chances de falência dos órgãos, infecções", justificou.
Na região de Londrina, dos 20 doadores que tiveram mais de um órgão aproveitado entre o início do ano e a última quarta-feira, em apenas três casos foi possível utilizar o coração e o pulmão. Ogle explica que esses órgãos nem sempre podem ser usados devido a algumas situações: estão muito sujeitos a infecções em procedimentos invasivos, muitas vezes são necessárias grandes doses de medicamentos para mantê-los em funcionamento, entre outras complicações.
Segundo estatísticas da Central Estadual de Transplantes, entre janeiro e setembro deste ano ocorreram 143 doações de órgãos no Paraná. Esse índice quebrou uma tendência de aumento das doações que vinha sendo verificada no Estado nos últimos anos – no mesmo período em 2013, foram 170 registros na central.
A coordenadora diz que há uma tendência de decréscimo nacional. Uma das principais razões é que mais famílias estão se recusando a doar órgãos de parentes falecidos. Segundo Ogle, na região de Londrina, havia recusa em 48% dos casos. Este ano, as negativas chegaram a 70%.
"Não sabemos as razões disso, mas cogitamos alguns motivos. No ano passado, foi desmantelado um banco de ossos ilegal em Londrina. Pode parecer que não, mas muitas pessoas ficaram desconfiadas do processo (de captação e transplante de órgãos). Além disso, este ano, a Campanha da Fraternidade (da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB) tratou do tráfico de pessoas, entre elas as que tiveram rins arrancados. Muitas pessoas já têm desconfiança, quando surgem essas discussões, isso aumenta o receio", explicou. "Por isso estamos sempre na mídia, falando da segurança e da importância da doação de órgãos. Estamos em um processo de construção histórica da doação como um valor natural na nossa sociedade."

Imagem ilustrativa da imagem Seis pacientes recebem órgãos de adolescente
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