Seis milhões de crianças estão em situação de ''absoluta pobreza'' no Brasil. O índice representa 10% da população infantil do País. Os números são do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que divulgou ontem uma pesquisa mostrando o problema no mundo. A entidade levou em consideração a falta de condições humanas básicas para que as crianças tenham um desenvolvimento normal e saudável, como alimentação, água limpa, saneamento básico, saúde, habitação, educação e informação para chegar ao coeficiente divulgado.
Em Londrina, a situação não é diferente. Segundo a Secretaria de Assistência Social, cerca de 30 mil crianças e adolescentes fazem parte de famílias que têm renda per capita inferior a meio salário mínimo. Os assentamentos existentes na cidade retratam bem a situação nacional. Fome, falta de infra-estrutura, saúde e educação, violência, drogas fazem parte da rotina das vidas de milhares de crianças que moram por lá.
A família da dona de casa Ana de Fátima Lopes Silva, 40 anos, moradora do Jardim Santa Fé, é um exemplo disso. Numa casinha de três cômodos e um banheiro, sem energia elétrica e água, ela mora com os oito filhos - o mais velho tem 17 anos e a mais nova tem 3 - e o marido José Lopes, 60 anos, que está hospitalizado com uma infecção nas pernas. Os dois estão desempregados e criam os filhos com apenas R$ 100, que recebem do Programa Bolsa Escola, do Governo Federal. ''Com esse dinheiro eu compro o gás, arroz, feijão e óleo, mas dá só para 15 dias'', lamenta Fátima.
As crianças pequenas precisam, ao menos, do leite. Mas será que dá para comprar? ''De vez em quando. A gente compra um litro a cada cinco dias e olha lá. Esses dias a minha filha menor começou a passar mal de noite porque já fazia tempo que não tomava leite e eu nem conseguia dormir. Aí tive que pedir para uma mulher, que me deu um litro'', conta a dona de casa.
Das oito crianças, as duas menores, com três e quatro anos, respectivamente, não estudam, porque, segundo a mãe, ainda não estão na idade. O mais velho, de 17 anos, parou de estudar quando estava na primeira série do ensino médio. O reflexo está na educação das crianças. A menina de cinco anos pode não entender muito o que é ensinado na escola, mas conhece todos os ''palavrões''.
A pesquisa ainda mostra que 15% das crianças brasileiras vivem sem condições sanitárias básicas. No assentamento Monte Cristo isso pode ser notado. Lá não existe saneamento básico e apenas algumas casas possuem água e luz. Outra dona de casa, Ana Paula Fernandes, 23 anos, vive o mesmo drama de Fátima da Silva. Apesar da pouca idade, ela já tem quatro filhos. O marido, desempregado há dois anos, cata papel para tentar conseguir alguns trocados. O barraco que a família mora tem 12 metros quadrados, é de chão batido e não possui nem banheiro. ''Tem que fazer as necessidades no balde e jogar na fossa'', revela.
Para comprar o arroz e o feijão para o mês, ela usa a aposentadoria do filho de três anos, que é portador de paralisia cerebral. ''A nossa 'sorte' é isso (o benefício do menino), senão a gente não teria nem o arroz e feijão para comer'', diz. ''Eles têm que estudar para tentar ter alguma coisa no futuro, porque o pai e a mãe não vão conseguir nada'', completa Ana Paula.
O problema é ainda maior nas áreas rurais do Brasil. Cerca de 27,5% das crianças carentes que moram nesses locais, estão em ''absoluta pobreza'', enquanto nas áreas urbanas, esse número representa 4,3% da população infantil. Mais de 1,3 milhão sofre com problemas alimentares no Brasil como desnutrição e até mesmo fome.
Mundo Ao todo, de acordo com o Unicef, mais de um bilhão de crianças estão sofrendo com a pobreza, o que significa mais da metade da população infantil do mundo, que chega a quase 2 bilhões de crianças. O item não leva em conta apenas a renda familiar, mas também o acesso a serviços sociais.
O estudo foi baseado na análise de dados coletados no final da década de 90, compreendendo 1,2 milhão de crianças em 46 países, o que, segundo o Unicef, representa a maior pesquisa já realizada sobre o assunto.

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