Curitiba - O presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar, bispo Dom Mauro Morelli, que esteve ontem em Curitiba para o lançamento da campanha da Companhia Paranaense de Energia (Copel) para arrecadar recursos para o programa Fome Zero, não está satisfeito com o ritmo das discussões em torno da política nacional de segurança alimentar. Ele defende que as decisões políticas saiam do âmbito do Distrito Federal, que haja distribuição equitativa dos recursos e que se criem mecanismos para combater as desigualdades regionais.
Como um dos nomes de maior expressão no trabalho de combate à fome no País, Dom Mauro afirmou que a segurança alimentar não deve ser entendida como um ''ato de benemerência, mas como um direito básico do cidadão''. Ele se diz ''incomodado'' com o discurso de usar sobras de comida de restaurantes para resolver o problema da fome. ''Nós estamos falando de segurança alimentar sustentável'', destacou. As propostas do Fome Zero, lembrou, incluem reforma agrária e incentivo à agricultura familiar.
Para Dom Mauro, o grande desafio é conhecer as reais condições nutricionais da população brasileira. No próximo dia 25, ele se reunirá com o ministro da Saúde para discutir a implantação do Sistema de Vigilância Alimentar Nutricional. A proposta é que as ações comecem pela primeira infância, crianças de até cinco anos de idade. ''Estatística tem que ter rosto, nome e endereço'', defendeu Dom Mauro ao criticar a falta de informações sobre a população. ''Para boi a gente tem controle e para o ser humano não'', ironizou.
Outra proposta defendida por Dom Mauro é a criação de um programa nacional de combate ao desperdício. Ele citou um estudo feito pela Fundação João Pinheiro, de Minas Gerais (onde preside o Conselho de Segurança Alimentar), que apontou que o desperdício no País representa perdas de US$ 600 milhões por ano. ''Pensar em segurança alimentar começa com o meio ambiente, com a preservação dos recursos naturais'', avaliou.
Dom Mauro também vê como desafio fazer com que os recursos cheguem aos municípios, já que ele entende que as políticas de segurança alimentar devem vir de ''baixo para cima''. ''Não dá para tratar o problema da fome com casas sem saneamento, com esgoto a céu aberto e água poluída'', advertiu.
Depois de acompanhar o lançamento da campanha da Copel, Dom Mauro se reuniu com o governador Roberto Requião (PMDB) para discutir a criação do Conselho Estadual de Segurança Alimentar no Paraná. A partir de março, Dom Mauro receberá da Organização das Nações Unidas (ONU) o mandato de Promotor Mundial de Nutrição, integrando o Conselho Permanente de Nutrição daquele organismo.

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