Segue a segunda demonstração da coluna de Roberto DaMatta Roberto DaMatta dá sua receita para o Brasil
São Paulo, 14 (AE) - No segundo semestre de 1987, o antropólogo Roberto DaMatta deixou para trás quase tudo o que o incomodava no Brasil: o cinismo dos políticos brasileiros, a desvalorização do intelectual, o profundo desrespeito pelo ser humano. DaMatta mudou-se para os Estados Unidos, onde assumiu o posto de professor permanente da Universidade de Notre Dame, em Indiana. O exílio voluntário que deveria durar dois anos se estende até hoje, e é de lá que Damatta avalia o cenário brasileiro que pouco mudou desde sua partida, em uma coluna semanal. Ele é o mais novo integrante da equipe de articulistas da AGENCIA ESTADO.
Considerado um dos maiores antropólogos brasileiros, DaMatta é autor dos livros "O Que Faz o Brasil Brasil", "Carnavais, Malandros e Heróis" e "A Casa e a Rua", entre outros. Sua coluna semanal é publicada aos domingos pelo JORNAL DA TARDE, de Sao Paulo, e será distribuída como demonstração aos assinantes da AGÊNCIA ESTADO. Durante este período, a publicação está liberada sempre aos domingos. Os interessados em adquirir a coluna de DaMatta após o período de demonstração devem entrar em contato com o departamento comercial da AE pelo telefone (011) 856.2700 ou pelo e- mail:[email protected] Hábitos do coração Por Roberto DaMatta
Quando, em 1979, publiquei ensaio sobre o Você sabe com quem está falando? como um ritual autoritário, tirando a velha expressão dos assuntos inocentes, desses que poderiam ser modificados pela boa educação ou por decretos modernos e bem- intencionados, eu abria as portas de minha sociologia do Brasil para os nossos hábitos do coração.
A expressão é de Alexis de Tocqueville e foi usada quando o sábio francês busca compreender, no livro "A Democracia na América", a sociedade americana que, já na metade do século passado, o impressionava pela adoção de práticas sociais igualitárias e democráticas.
O meu estudo do você sabe com está falando? inspirou-se muito em Tocqueville. Para escrevê-lo, eu me transformei em viajante e estranhei o Brasil. Não para dizer como ele era um país atrasado, coisa corriqueira para a nossa elite intelectual tão habituada a ditar normas e a desprezar o Brasil, mas para penetrar nos nossos hábitos do coração.
Foi assim que mostrei como o sabe com quem está falando? era um ritual de recusa do anonimato e da impessoalidade em situações nas quais uma autoridade tentava enquadrar em alguma lei universal uma dada pessoa. Meu estudo indicava como era explosivo esse encontro do universalismo da lei com pessoas de carne e osso que tentavam fumar nos elevadores, estacionar o automóvel em local proibido ou simplesmente não desejavam aguardar a vez numa longa fila. As reações, reveladas pelos tronitroantes e antipáticos você sabe com quem está falando?, permitiam ver duas entidades incrustadas em cada um de nós. De um lado, exibia o indivíduo sujeito de leis feitas para todos - a nossa dimensão João Ninguém obediente e humilde; do outro, abria as portas para a pessoa que também convive dentro de nós - nosso lado João Alguém que, filiado à casa tal ou qual, aparentado do senador Fulano, do general Sicrano, introduzia num meio formalmente igualitário hábitos hierárquicos vigentes na nossa ossatura aristocrática.
Gritando o você sabe com quem está falando? reintroduzíamos a pessoa numa situação onde só caberia o indivíduo. Essas medidas duplas me remeteram - esse era o fio da meada argumentativa do livro "Carnavais, Malandros e Heróis", depois consolidada em "A Casa & a Rua" e no pequeno "O que faz o Brasil, Brasil?" - a eixos que explicavam e construíam uma leitura dupla do Brasil. De um lado falava-se de um Brasil igualitário, baseado em práticas democráticas como as filas e a obediência generalizada às regras do bom desempenho o que, na totalidade, gerava um bem-estar pelo mérito individual. A outra leitura, entretanto, apontava para um Brasil onde todos tinham um lugar pré-estabelecido. Uma estrutura na qual o desempenho era dispensável como instrumento de classificação social. Nesse sistema, a surpresa era clamar pela lei quando tudo indicavava que o curso tradicional de ação seria guiado pela hierarquia. A dialética entre esses sistemas constituía a escritura básica dos nossos hábitos do coração.
Hoje, supomos, tudo muda aceleradamente e o Brasil tem feito um enorme esforço para esquecer-se enquanto sociedade hierarquizante e para lembrar-se como um sistema liberal fundado no indivíduo, no desempenho e o mérito.
Mas os sabe com quem está falando? culturais continuam operando entre nós. Vejam um exemplo pungente.
Na semana passada, os bombeiros de Belo Horizonte e os nossos jogadores de futebol atuavam, cada qual a seu modo, contra certos acidentes. Os do futebol contra a nossa permanente crise de autoconfiança que, mesmo na vitória, diz que o adversário é muito fraco. Os do fogo, atuando heroicamente contra um rio caudaloso que dragava os infelizes passageiros de um ônibus desgovernado no centro da capital de Minas. Ambos os desempenhos foram fulgurantes. Mas quem reconheceu o mérito dos bombeiros? Quem, além da mídia televisa, consolou as vítimas? Que autoridade falou com os heróis de Belo Horizonte?
Enquanto isso, o presidente, seguindo os nossos hábitos do coração, recebia no Palácio os jogadores de futebol já aristocratizados por um sucesso que transforma até mesmo os mais pobres em reis, princípes e nobres.
Nada tenho contra receber com honra e circunstância os futebolistas. Mas não posso deixar de usar o exemplo para indicar que liberalismo é mais do que econometria: é um hábito do coração. Ao reconhecermos os jogadores de futebol, exibimos nossa insensibilidade para outras formas de mérito intoleravelmente carentes de reconhecimento em nossa sociedade.





