Paris (AE-NEWSWEEK) - Finalmente admitidos de volta à caverna que contém as mais antigas pinturas em rocha do mundo, os cientistas buscam pistas para a vida e as crenças dos antigos artistas. Parado diante da rocha suspensa bem no fundo de uma caverna úmida, o arqueólogo Yanik Le Guillou teve uma idéia: instalar uma câmera digital em um mastro de 3 metros de altura, manobrá-la passando pela rocha, girar o conjunto apenas um pouquinho e captar em filme o quer que fosse que estivesse escondido na muralha.
Na primeira tentativa, os cientistas captaram uma cabeça do que parecia a pintura de um bisão. Na segunda, os seus pés. Finalmente, conseguiram a imagem do animal por inteiro que revelou-se mais parecido com um boi-almiscareiro ou um rinoceronte sem chifres. O dia seguinte trouxe uma presa ainda maior: pintado ao lado do animal estava um leão e um mamute, animais poderosos que são quase tão raros na arte rupestre paleolítica quanto nas ruas de Paris.
Foi como perscrutar o santuário interno de uma galeria de arte onde o marchand mantém as melhores obras para seus clientes exclusivos. E, embora, a Grotte Chavet, no sudeste da França, não fosse nenhum ponto de reunião dos homens da Idade da Pedra, chegou perto: os cientistas acreditam que, por milhares e milhares de anos, os homens antigos retornaram à gruta repetidas vezes no que parece ter sido uma peregrinação espiritual.
A Grotte Chauvet é uma das centenas de cavernas naturais recortadas nos penhascos escarpados de calcário descorado que formam a Ardche Gorge. Mas é única. Seus desenhos gravados em pedra e 416 pinturas - mais uma dúzia foi descoberta na expedição de 15 dias que começou na semana passada - constituem, aos 32 mil anos, a mais antiga arte rupestre conhecida da ciência.
A descoberta consiste em um mural após o outro de leões audaciosos, cavalos pulando, corujas meditativas e pesados rinocerontes que, juntos, compõem um verdadeiro Louvre da Arte Paleolítica. Embora Jean-Marie Chauvet e seus amigos tenham se deparado com a caverna em 1994, durante anos sua exploração foi impedida por ações judiciais sobre quem possuía os direitos à gruta.
Finalmente, o arqueólogo Jean Clotter, consultor de ciências do Ministério da Cultura da França, ganhou permissão para conduzir uma equipe para uma incursão dentro da caverna em 1998. Na semana passada, ele e uma dezena de colegas retornaram, buscando pistas para a estrutura social, maneira de pensar e crenças espirituais dos artistas ancestrais.
Com certeza, esses artistas deixaram indícios suficientes. Uma série de três câmaras, com 520 metros de comprimento, além de uma galeria de ligação e três vestíbulos estão todas cobertas de obras de mestre de tirar o fôlego no uso da perspectiva (como nos mamutes que se sobrepõem) e sombreamento - técnicas que se supunha só terem sido inventadas milênios mais tarde. E uma eternidade antes que Seurat tivesse a idéia, artistas da Idade da Pedra inventaram o pontilhismo: um animal, provavelmente um bisão, é feito apenas de pontos vermelhos.
O mais surpreendente, entretanto, é que esses artistas tinham uma predileção por rinocerontes, leões, ursos de caverna e mamutes. Em contraposição, a maior parte da arte rupestre retrata animais caçados.
"De todo o bestiário desse povo, os artistas escolheram animais predatórios, perigosos", diz a arqueóloga Margaret Conkey da Universidade da Califórnia, Berkeley.
Pintando espécies que virtualmente nunca fizeram parte do cardápio paleolítico mas que "simbolizavam o perigo, força e poder", diz Clottes, os artistas podem ter tentado "captar a essência dos animais".
Como frequentadores de galeria maravilhados, a equipe de Clotte gastou longas horas observando as pinturas e se perguntando, o que significavam? Uma pista está na forma como as imagens estão integradas às paredes. Em "Goldilocks", os membros inferiores que estão faltando em um urso das cavernas desenhado em ocre vermelho parecem estar dentro e não sobre a rocha. "O urso parece estar saindo da parede", diz Clottes. E, na semana passada, a equipe de Clotte descobriu dois cabritos monteses na mesma câmara. Os chifres de um deles são na realidade rachaduras na parede que o artista raspou e ampliou.
"Para a forma de pensar desse povo, o espírito desses animais estava dentro da parede", diz Clotte. Os artistas talvez acreditassem que pintando-os seu poder interior passaria para o mundo real.
Outras pistas do papel espiritual da caverna incluem gravações de dois triângulos púbicos - símbolos da fertilidade? - e uma criatura com pernas humanas e a cabeça e o torso de um bisão, sugerindo que as pessoas esperavam incorporar em si mesmas algo do poder dos animais. O urso das cavernas, em particular, talvez tenha tido um significado especial.
A presença de 55 antigos crânios de urso, incluindo um cuidadosamente colocado sobre uma rocha deitada como se fosse um altar, indica o culto do urso das cavernas. E isso talvez explique porque os artistas rupestres escolheram Chauvet: dezenas de buracos no chão indicam que os enormes ursos hibernavam ali. As pessoas voltaram repetidas vezes ao local para ver as obras.
No "painel dos cavalos", com 900 metros de comprimento, as marcas de carvão de tochas contra a parede foram feitas depois das pinturas, diz Conkey; as marcas são sobrepostas à luminosidade mineral que cobre as figuras. Se a pintura foi o primeiro passo em uma busca espiritual, então prestar homenagem aos trabalhos foi o segundo.
Praticar arqueologia nas cavernas ainda é um trabalho difícil. O acampamento base é uma gruta com 8 metros de profundidade onde estão espalhadas roupas, equipamentos e baguettes. Mas desde a descoberta das cavernas pintadas de Lascaux em 1940, o trabalho entrou na era da alta tecnologia. A equipe de Clotte está fotografando as pinturas e os desenhos gravados com uma câmera digital e uma de infravermelho de 35 mm, que capta a pintura vermelho ocre melhor do que os dispositivos ópticos padrão.
Na base de pesquisa no vale, a equipe escaneia ou descarrega as fotos em computadores, o que possibilita avivar as cores, intensificar contrastes ou manipular a imagem. Esta técnica ajudou a explicar dois conjuntos de pontos vermelhos que pareciam exclusivos de Chauvet. Usando um scanner, os arqueólogos alimentaram imagens dos pontos em um computador e um programa sobrepôs uma série de marcas de mão sobre os pontos.
O que melhor se encaixou em um conjunto de 48 pontos foi uma sequência de marcas de mão deixadas por um adolescente ou uma mulher de baixa estatura. Já um painel de 92 pontos provavelmente foi trabalho artesanal de um homem alto. A presença de pessoas de sexos e idades diferentes sugerem uma experiência comunitária ou a presença de mestres transmitindo seus segredos a aprendizes. Parece que já há 32 mil anos, a arte era criada para mais do que apenas a arte pela arte.

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