Após gerar polêmica e indignação entre parte dos educadores da rede pública do Paraná, a Seed (Secretaria de Estado da Educação) informou que excluiu da plataforma RCO (Registro de Classe Online) um conteúdo elaborado para as aulas de educação financeira para alunos do sexto ano. O material ensinava crianças de 11 anos a diferenciarem “mentalidade rica” da “mentalidade pobre”.

Imagem ilustrativa da imagem Seed exclui material polêmico de plataforma de ensino
| Foto: Reprodução/APP Sindicato

O conteúdo que deveria ser utilizado pelos professores em sala de aula apresentava um quadro com as “principais diferenças entre pessoas de mentalidade rica e mentalidade pobre”. As características de cada grupo foram listadas, lado a lado, estimulando a comparação. Entre as qualidades das pessoas de mentalidade rica, estavam a capacidade de assumir os próprios erros, de olhar para as adversidades como aprendizado, sentir-se merecedor do dinheiro, admirar pessoas de sucesso e fazer o dinheiro trabalhar.

Já as pessoas de mentalidade pobre seriam aquelas que culpam os outros e o governo, veem as adversidades como insuperáveis, não planejam o futuro, não se sentem merecedoras do dinheiro, desprezam pessoas bem-sucedidas e trabalham pelo dinheiro, entre outras.

O quadro foi parar nas redes sociais, virou polêmica e ganhou destaque na imprensa nacional. A Seed esclareceu que o material foi produzido por um docente, servidor da rede estadual, e havia sido incluído na plataforma RCO, que disponibiliza material de referência para as aulas dos professores. Mas segundo a secretaria, os educadores “têm autonomia para alterá-los ou não utilizá-los”, conforme divulgou em nota encaminhada por sua assessoria de imprensa.

A nota informou ainda que a pasta abriu procedimento interno para avaliar como o material foi produzido e como foi disponibilizado na plataforma, uma vez que “não condiz com a visão da pasta sobre educação financeira”. “Não rotulamos, julgamos ou dividimos as pessoas”, disse a Seed.

A disciplina de educação financeira é uma das que estão dentro da matriz do novo ensino médio, aprovado em 2017. Muitos educadores, com o apoio da APP-Sindicato, tentaram impedir a implantação do novo modelo, mas ele acabou sendo adotado no Paraná em 2022. “Essa atividade que vazou está nessa perspectiva de fazer outra formação para colocar esses valores individualistas, focados no mercado, na meritocracia. Eles entendem que cabe à escola preparar o jovem para isso e nós discordamos”, disse a secretária educacional da APP-Sindicato, Vanda Bandeira Santana.

A sindicalista qualificou o conteúdo como “absurdo” por gerar preconceito com as pessoas de baixa renda. Na avaliação da entidade, o material estigmatiza a pobreza e glorifica o dinheiro. “A pobreza é resultado de uma sociedade desigual, onde tem uma acumulação de riqueza de uma minoria. A pessoa não decide ser pobre. É uma série de fatores. A desigualdade social é parte da sociedade capitalista e produzir pobreza é parte do sistema”, analisou Santana. “A escola pode trabalhar a questão da educação financeira, mas formando cidadãos críticos e não criar uma educação financeira formando as pessoas para serem competitivas e culpabilizarem as pessoas em situação vulnerável. A Seed teve, nesse episódio, um posicionamento ideológico.”

Ao contrário do que afirmou a Seed, Santana disse que os docentes têm pouca autonomia para alterarem os conteúdos que vêm prontos da secretaria. “Nessa nova matriz do ensino médio, nós não temos formação para muitas disciplinas, como a educação financeira. Hoje, quem está ministrando essas aulas passou por uma formação bastante precarizada. Quando os professores têm esse material pronto, acabam utilizando.”

A crítica ao conteúdo polêmico retirado da plataforma da Seed é só uma pequena parte de uma luta maior da APP-Sindicato que debate junto com outras entidades de outros estados a necessidade de se revogar as mudanças feitas na BNCC (Base Nacional Comum Curricular). O entendimento das entidades que pedem a revogação é que as alterações na lei foram um “desastre” para o sistema educacional. “Mas não é um processo simples”, reconheceu Santana.

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