Rio, 05 (AE) - O secretário estadual de Segurança do Rio, general José Siqueira, disse hoje ter ficado "surpreso" com a declaração do governador Anthony Garotinho (PDT) de que toda a cúpula da Segurança Pública está sendo pressionada por pessoas contrárias à nova política do governo para o setor - mais voltada para ações sociais do que para a repressão. Siqueira responsabilizou ainda seu subsecretário, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, pela crise que vive a secretaria desde a semana passada, quando veio à tona a denúncia do grampo em telefones do governo. A denúncia partiu de Soares, que teria sido uma das vítimas do grampo.
"Essa crise surgiu depois que o Luiz Eduardo defendeu a extinção do Cisp (Centro de Inteligência e Segurança Pública) em entrevista a um jornal", afirmou. O secretário disse que não existe tanto na Polícia Militar quanto na Polícia Civil pressão contra integrantes do comando da Segurança Pública, ao contrário do que afirmou o governador.
"Na Polícia Militar, todos estavam desde a nomeação sabendo da nova política de segurança; na Civil, houve alguns probleminhas com a escolha do chefe de Polícia, Carlos Alberto de Oliveira, por ele ser um delegado de segunda classe, mas também já foram resolvidos", disse.
Soares mostrou-se "perplexo" com as declarações do secretário. Ele negou que estivesse defendido a extinção do Cisp
mas, sim, a reestruturação do órgão, que, segundo Soares, mantém "atividades nebulosas" que visam a atingir o comandante-geral da PM, Sérgio da Cruz. O subsecretário acusa o chefe de contra-inteligência do Cisp, coronel Marcos Paes, nomeado por Siqueira, como responsável pelas pressões contra a cúpula da Segurança, visando, principalmente, o comandante-geral da PM.
Paes estaria investigando ligações de Cruz com o jogo do bicho. Essas ligações passariam pela nomeação de dois comandantes de batalhões, no atual governo, como integrantes do esquema de propina do bicho. Em um deles, na Região dos Lagos, o comandante teria grau de parentesco com o Cruz. Hoje, Siqueira não só confirmou que soube das investigações sobre o caso, há 15 dias, pelo próprio diretor do Cisp, Romeu Ferreira, que se demitiu na semana passada, como garantiu que elas vão continuar mesmo com a mudança do comando do órgão - como foi anunciado por Garotinho no domingo.
"Qualquer denúncia tem que ser apurada", afirmou. "Se o comandante for inocente, ele sairá fortalecido, caso contrário, ficará desestabilizado." O coronel Cruz, porém, reagiu com indignação. "Não tenho nada a temer", disse. "O que tenho a dizer é apenas uma coisa: quando se tenta fazer mudanças profundas, a reação também é muito profunda."
As declarações de Siqueira expõem a crise de comando pela qual passa a cúpula da Segurança Pública do Rio. Apesar de ocupar o cargo de subsecretário, Soares é um dos integrantes do governo Garotinho com maior liberdade de ação. Ele tem carta branca para falar com a imprensa sem pedir autorização ao governador - privilégio que não é extendido a outros secretários.
É Soares, por exemplo, quem anuncia todas as ações de vulto da política segurança de Garotinho, como foi o caso da campanha de desarmamento "Rio, abaixe essa arma".
Segundo integrantes da Secretaria de Segurança, essa liberdade tem irritado o general Siqueira, que se vê colocado em segundo plano pelo governador. A atuação de Soares é vista pelo secretário, de acordo com essas fontes, como "desrespeito à hierarquia". Ao contrário de Siqueira, que é uma indicação do ex-governador Leonel Brizola, o subsecretário foi levado ao cargo pelo próprio Garotinho, com quem escreveu o livro "Violência e Criminalidade no Estado do Rio de Janeiro", que traz os principais planos do atual governador para a área. O livro foi utilizado como plataforma de governo durante a campanha eleitoral do ano passado.

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