Brasília, 14 (AE) - O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Raymundo Damasceno, disse hoje que o governo federal não pode empossar o novo diretor-geral da Polícia Federal (PF), João Baptista Campelo, sem antes apurar a denúncia de tortura contra o ex-padre José Antônio de Magalhães Monteiro, no Maranhão, em 1970. D. Raymundo disse que a denúncia, além de ser "muito grave", está toda documentada em laudos oficiais da época, documentos da Igreja e testemunho.
"O governo não deve nomear e empossar sem apurar tudo e identificar os responsáveis pela tortura", disse d. Raymundo. O secretário-geral da CNBB afirmou que um acusado de tortura jamais poderia assumir o cargo de diretor-Geral da PF. "A polícia tem a tarefa de defender a ordem pública", disse, "mas sem violar os direitos humanos". D. Raymundo disse que a tortura de Monteiro retrata a fase do regime militar em que muitos religiosos foram perseguidos como "subversivos" por desenvolver trabalhos sociais.
Monteiro, hoje professor universitário, trabalhava no início da década de 70 com um grupo de religiosos que tirava prostitutas das ruas e as reintegrava à sociedade, dando-lhes trabalho em dioceses e casas de família. O movimento, conhecido como Le Nid (O Ninho), também desenvolvia trabalho de assistência a sem-terra expulsos de latifúndios. "Muita gente que desenvolvia trabalho social foi perseguida e torturada", disse o secretário-geral da CNBB. D. Raymundo disse que há documentação farta provando que o ex-padre foi torturado nas dependências da PF, sob a responsabilidade de Campelo. D. Raymundo lembrou que, na época, um grupo de bispos assinou documento condenando a tortura do ex-padre. A comissão central da CNBB enviou carta ao então presidente, general Emílio Garrastazu Médici, pedindo providências contra a tortura e os maus tratos a Monteiro.
A cúpula da CNBB vai reunir-se na próxima semana para discutir vários assuntos da entidade. A nomeação de Campelo para a diretoria da PF, que não estava na pauta, poderá entrar nas discussões dos bispos. Não está prevista a divulgação de documento condenando a nomeação de Campelo, mas deverão ser feitas novas declarações condenando a nomeação A posse de Campelo está marcada para amanhã (15) à tarde, no Ministério da Justiça. Quarta-feira (16), Monteiro irá depor à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. É também quarta-feira que a Anistia Internacional divulga o relatório anual sobre desrespeito aos direitos humanos em vários países, até mesmo no Brasil.
Hoje, o advogado Antônio de Pádua Barroso disse que irá depor à Comissão de Direitos Humanos, se for convocado. Barroso defendeu Monteiro em 1970, em processo movido pela Auditoria Militar de Fortaleza. Barroso guarda até hoje cópia do laudo da Divisão Médica-Legal da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, mostrando que o ex-padre foi torturado. "O padre ficou abatido e arrasado depois que foi submetido ao pau-de-arara", disse o advogado.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) divulgou hoje nota defendendo "rigorosa" apuração da denúncia de tortura do padre nas dependências da PF. Sendo comprovada a participação de Campelo, diz a nota, "é absolutamente inaceitável a nomeação para o cargo de comando da Polícia Federal ou de qualquer outro organismo de segurança do Estado".
O grupo Tortura Nunca Mais do Rio lançou hoje campanha alertando 140 entidades de direitos humanos para elas pedirem ao governo que não nomeie Campelo diretor-geral da PF. A estratégia do grupo é que as entidades façam este apelo diretamente ao presidente Fernando Henrique Cardoso, com cópias para o ministro da Justiça, Renan Calheiros, e o secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregori.

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