Secretário faz avaliação sombria do setor exportador
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de março de 1999
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 10 (AE) - O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Mario Marconini, fez hoje uma avaliação sombria do setor exportador brasileiro. "O comércio exterior do País não vai bem", disse Marconini durante almoço promovido pela Associação Brasileira dos Executivos de Comércio Exterior (Adede).
De acordo com o secretário, a balança comercial do País se transformou em refém das linhas de crédito internacionais. "Nunca houve uma secura tão generalizada como agora. A credibilidade atingiu tanto essas linhas que, antes da crise da Rússia, estas chegavam a US$ 40 bilhões, mas hoje não chegam nem a US$ 20 bilhoes", afirmou.
Marconini explicou que nem mesmo durante a moratória os financiamentos internacionais estiveram tao raros como agora. Além disso, acrescentou o secretário, as poucas linhas existentes têm taxas de juros de 10% ou mais acima da Libor. "Ninguém quer isso", disse. O secretário informou que o governo vem trabalhando numa série de frentes para poder restabelecer as linhas de financiamento.
Uma das possibilidades seria o lançamento de bônus atrelados ao comércio exterior. "O comércio exterior brasileiro sempre teve um bom fluxo e com alta credibilidade, não vejo como não poder emitir bônus atrelado a esse setor como garantia", explicou.
O secretário acrescentou que se trata apenas de uma idéia, que surgiu nas recentes reuniões que manteve com bancos nacionais e internacionais. Outra sugestão que vem sendo analisada pelo governo é a possibilidade de usar os depósitos compulsórios dos bancos para facilitar as linhas de crédito que hoje praticamente desapareceram.
Marconini enumerou, porém, alguns problemas que terão de ser eliminados para atingir as metas de superávit comercial previtos no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Além das linhas de crédito, disse, é necessário resgatar a cerdibilidade do País no Exterior e fazer com que os produtos brasileiros possam competir com os mesmos produzidos em outros países emergentes, como a Tailândia e a Coréia.
"Ainda estamos esbarrando nas prioridades macroeconômicas", afirmou, citando alguns problemas no setor de microeconomia que acabaram sendo esquecidos.
Segundo ele, a estrutura tributária e a infraestrutura deficitária ainda está punindo o setor produtivo do País. Outro problema que o Brasile terá de enfrentar, segundo Marconini, é a crescente onda protecionista. O secretário disse que os US$ 11 bilhões de superávit comercial previstos para este ano são apenas indicativos, ou hipóteses básicas acertadas com o FMI, e não uma meta.
Um tanto mais otimista ao final de sua palestra, o secretário de comércio exterior disse que a balança comercial nos dois primeiros meses do ano vem sinalizando uma tendência superavitária. Em janeiro, por exemplo, o comércio exterior brasileiro apresentou um saldo positivo de US$ 754 milhões. Mas em fevereiro o superávit não passou de US$ 219 milhões.
No ano passado, as exportações apresentaram uma queda de 3,5%, enquanto que as importações aumentaram 6,5%, provocando um déficit de US$ 6,4 bilhões na balança comercial. Outro dado estatístico que assusta é o forte crescimento do coeficiente importador. Segundo Marconini, entre 1989 e 1998, esse coeficiente cresceu 75%, enquanto o coeficiente exportador aumentou apenas 18%.


