Secretaria não vacinou gado em fazenda invadida
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segunda-feira, 17 de maio de 1999
Por Evandro Fadel 
Curitiba, 18 (AE) - A Secretaria da Agricultura do Paraná não tinha conseguido, até a tarde de hoje, vacinar contra a febre aftosa o gado da Fazenda Sete Mil, que congrega três propriedades pertencentes ao agropecuarista paulista Flávio Pinho de Almeida. A fazenda, em Jardim Alegre, no norte do Paraná, está ocupada por aproximadamente 1,2 mil famílias de sem-terra. O chefe do núcleo da secretaria em Ivaiporã, Sérgio Empinotti, acredita que o impasse pode ser resolvido amanhã (19). O período oficial de vacinação termina quinta-feira (20).
A informação de que os sem-terra decidiram cancelar uma reunião marcada para esta quarta-feira, na qual se discutiria a vacinação, foi dada pelo advogado do proprietário da área, Nilson Campos Silva. Ele também afirmou que os sem-terra ameaçam soltar os animais nas rodovias da região, caso Almeida não lhes entregue as vacinas. O proprietário, no entanto, não aceita essa exigência, preferindo que seus próprios vaqueiros vacinem o rebanho.
Um dos coordenadores do Movimento dos Sem-Terra (MST), em Curitiba, Dirceu Boufler, disse hoje que os sem-terra não vêem necessidade de reunião para discutir a vacinação. "Que a secretaria vá lá e faça o trabalho", afirmou. "O que as famílias de lá não querem é que encham a fazenda de pistoleiros." De acordo com o coordenador, a reunião somente serviria para identificar as lideranças do acampamento. "O pessoal está com medo."
O número de cabeças de gado que estão na fazenda é desconhecido. O advogado afirmou que, na primeira invasão, quando foi ocupada parte da fazenda, em abril de 1997, havia 12 mil animais. Acusando os sem-terra de terem vendido parte do gado e matado alguns, Campos Silva acredita que existam hoje perto de 9 mil cabeças. No entanto, durante a vacinação no início do ano foram imunizados cerca de 3 mil animais.
De acordo com o chefe do núcleo da Secretaria da Agricultura
a decisão de não permitir a entrada de vaqueiros para a vacinação é dos líderes dos acampados. Ele acreditava que, numa reunião que deveria acontecer hoje entre os líderes do MST na região, essa decisão poderia ser reconsiderada. Segundo Empinotti, à secretaria não interessa quem fará a vacinação. "Nós queremos a garantia de que vão ser vacinados 100% dos animais."
O advogado de Almeida disse que o decreto presidencial considerando a fazenda como de interesse para desapropriação parcial pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), editado em novembro de 97, foi anulado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em junho de 98. Mesmo assim, os sem-terra promoveram nova invasão, dois meses depois, ocupando toda a propriedade.
Campos Silva também remeteu ofício ao Tribunal de Justiça do Paraná reiterando o pedido de intervenção no Estado, por não cumprir ordem de reintegração de posse, e enviou ofícios à Secretaria de Segurança Pública e à Procuradoria Geral do Estado. "Com a não-vacinação do rebanho e a ameaça de soltar o gado, há uma nova e mais grave dimensão do problema, pois compromete a política sanitária e a economia do Estado, além de pôr em risco a segurança física da população da região", afirmou.


