Brasília, 26 (AE) - A secretária Nacional de Justiça, Sandra Valle, será a primeira mulher a assumir a função de consultora da Organização das Nações Unidas (ONU). Sandra, que será empossada no cargo dia 9 de agosto, em Viena, será responsável pela consultoria nas áreas de prevenção e controle de drogas na América Latina. Aos 49 anos, ela deixa o governo contabilizando mais de 20 extradições de criminosos brasileiros que estavam no exterior, mas afirma que o sistema jurídico do País poderia ser mais eficiente.
Advogada concursada pela Câmara dos Deputados, Sandra foi uma das principais auxiliares do então deputado Nélson Jobim
relator da revisão constitucional, em 1993. No início do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, Sandra foi convidada pelo então ministro Nélson Jobim a assumir a Secretaria Nacional de Justiça.
Sandra nasceu em Caratinga (MG) e estudou Criminologia e Direitos Humanos na Universidade de Londres, na Inglaterra, onde viveu sete anos. Ela acredita ter sido convidada para o trabalho na ONU por ter experiência em negociação de acordos de cooperação mútua em matéria penal, acordos de transferência de presos, penas alternativas e extradições. O que se comenta dentro da própria ONU é que o organismo também optou pelo "politicamente correto" ao escolher uma mulher. Sandra é divorciada e deverá viajar para vários países representando a ONU.
Críticas - As mudanças nas estruturas jurídicas que estão ocorrendo no mundo globalizado ainda não foram assimiladas no Brasil, disse Sandra Valle. Além da equipe reduzida de assessores no Ministério da Justiça, sem direito a um quadro de advogados, a área encontra sérias dificuldades para trazer criminosos de volta ao País, pois não dispõe nem de tradutores para enviar documentos ao exterior. É difícil obter até mesmo fotocópias de processos que se arrastam na Justiça brasileira para instruir pedidos de extradição encaminhados a outros países. Alguns juízes brasileiros acreditavam ser necessário o julgamento do réu para depois pedir ou conceder a extradição.
Para extraditar a fraudadora Jorgina de Freitas Fernandes para o Brasil, por exemplo, Sandra pegou o telefone e fez vários contados com autoridades no exterior. Um tipo de comunicação antes feita por demoradas cartas rogatórias, mesmo que fosse para pedir simples informações para instruir processos. Sem dispor de uma legislação eficiente, Sandra tomou a iniciativa de fechar acordos de troca de presos e de cooperação judiciária com vários países. Muitas destas propostas de acordo estão esperando avaliação do Congresso.
Executivos - Sandra acredita que o perfil ideal do jurista que trabalha para o governo, especialmente na área em que atuou nos últimos anos, seja de um executivo de empresa privada, que realmente resolve os problemas. "O ideal é um executivo de resultados", disse Sandra. A secretária afirmou também ser necessário conhecimento de línguas e de legislação internacional para enfrentar os novos tempos.
A secretária disse que vários dogmas estão caindo com a globalização da Justiça. Segundo ela, países desenvolvidos já adotam os depoimentos de criminosos em vídeo, sistema que ainda não é aceito no Brasil. "Muitos juristas dizem que é necessário olhar nos olhos para julgar", disse Sandra, "mas isto não é namoro", ironizou.Sandra afirmou que os países desenvolvidos adotam o sistema de força-tarefa, que permite investigação mais aprofundada e continuada. "Aqui ainda se trabalha com vaidades de corporações", disse.

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