Secretaria junta ex-internos e fugitivos em projeto comunitário
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domingo, 31 de outubro de 1999
Por Gabriela Athias 
São Paulo, 01 (AE) - Fugitivos da Fundação do Bem-Estar do Menor de São Paulo (Febem) e adolescentes ex-internos da instituição, alguns envolvidos em rebeliões e brigas, estão participando, de forma anônima, do projeto comunitário Parceiros do Futuro, da Secretaria de Estado da Educação. Segundo os monitores do programa, esses jovens apresentam "comportamento exemplar".
"Não pedimos carteira de identidade nem ficha de antecedentes criminais aos adolescentes que participam do projeto", diz o secretário-adjunto de Educação, Hubert Alquéres
coordenador-geral do programa. "Isso seria discriminação."
Dois policiais militares revezam-se na segurança das escolas durante as atividades do projeto, que ocorrem aos sábados e domingos, das 9 às 17 horas. Mas ninguém delata os fugitivos nem aponta os ex-internos. O projeto, que oferece dezenas de atividades artísticas e esportivas, além de som eletrônico com disc-jóquei, está sendo feito desde agosto em 102 escolas da rede estadual, localizadas em áreas consideradas violentas.
"Esses meninos são os primeiros a chegar e os últimos a sair", conta o monitor áureo Vertichio Silva, da Escola Estadual Francisco Pereira de Souza Filho, em São Miguel Paulista, zona leste da capital. "Eles ajudam a organizar as atividades e a manter um clima de amizade na escola."
Em uma das escolas dessa região, um dos fugitivos, conhecido como Bracinho, "coordena" os jogos de voleibol: chega cedo para armar a rede e organizar as equipes e é o último a sair.
Regras - "O caso é que aqui a gente faz as regras e fica bom pra todo mundo, tá ligado?", diz Paraguai, que frequenta outra escola na mesma região para jogar pingue-pongue e dançar rap. "Na Febem tem hora até pra tomar banho." Ele ficou três anos preso no Complexo Tatuapé, por ter participado de um assalto à mão armada.
Fanta, preso enquanto pichava a Estação Penha do metrô, diz que na Febem "manda mais" quem cometeu os crimes considerados mais "barra pesada", como homicídios e assaltos. "Aqui ninguém sabe quem é quem e todo mundo vem curtir."
Os garotos disseram ter sido vítimas de maus-tratos por parte dos monitores da Febem. Paraguai, que conta ter sido espancado com um pedaço de madeira enrolado em pano "para não deixar marca", diz que quem não conhece a realidade da Febem não deveria falar "mal dos moleques" (internos). "Agora é que eles conseguiram ter moral porque fica todo mundo na mão dos monitores", diz. Fanta diz que se apanha até "sem saber por quê".
Já os monitores do Parceiros do Futuro e os diretores das escolas, onde, segundo relatórios da Secretaria da Educação, o projeto está tendo êxito, decidiram desconhecer os antecedentes criminais desses meninos. Marcelo Leopoldo de Oliveira, da Escola Doutor álvaro de Souza Lima, na zona norte, conta ter ficado surpreso, quando há três sábados, soube que o fugitivo conhecido por Danda foi assassinado poucas horas depois de sair da escola. "Eu fiquei conversando com ele no portão, depois das atividades e combinamos nos encontrar no dia seguinte."
Alquéres, da Secretaria da Educação, diz que desde a criação do projeto, na primeira semana de agosto, a violência nas escolas-sede diminuiu. Alguns monitores acreditam que a convivência entre as gangues rivais, que aos sábados e domingos fazem atividades juntas, está começando a reduzir um pouco a tensão, até nas ruas dos bairros, fora das escolas.
Situações - O problema, como dizem técnicos do primeiro escalão da Secretaria da Educação, é que ao se envolver com a comunidade a secretaria está diante de situações insólitas para um órgão governamental.
Em Osasco, o Parceiros do Futuro está sendo divulgado pelos próprios adolescentes, em rádios comunitárias, consideradas piratas - funcionam sem autorização. E alguns monitores, de tão próximos dos jovens do programa, chegaram, nas primeiras semanas de atividade, a "guardar as armas" de alguns garotos enquanto eles estavam jogando futebol na quadra da escola. Os monitores pegaram os revólveres e pediram que não fossem trazidos na semana seguinte. Funcionou.
O secretário-adjunto Alquéres diz que, no fim do ano, o programa será retirado dos pontos onde a comunidade não está envolvida - bairros de classe média e escolas no centro, longe da casa dos alunos. A expectativa é levar o programa para Campinas, Ribeirão Preto e zona portuária de Santos. No primeiro mês do Parceiros, em São Paulo, 200 mil jovens participaram do programa. Para diverti-los a Secretaria está gastando R$ 1 milhão por mês. Ou seja R$ 5,00 por pessoa.


