Buenos Aires, 17 (AE) - "Temos de retomar a dureza nas negociações com o Brasil e ter posições mais firmes." A declaração é da Secretária de Indústria e Comércio da Argentina, Débora Giorgi, que em uma contundente entrevista ao jornal "Clarín" afirmou que é preciso "estabelecer cláusulas automáticas de compensação diante dos prejuízos que os países sofrem quando um dos sócios altera de forma unilateral as regras macro-econômicas, como foi o caso da desvalorização do real". Essa medida estaria dentro do que Giorgi denomina de "relançamento do Mercosul".
Segundo ela, o presidente Fernando De la Rúa terá um estilo de governo diferente do anterior, imprimindo um tom mais duro nas negociações. "Ele já fez isso ao prorrogar por decreto o regime automotivo por 60 dias", ilustrou. Referindo-se à administração do ex-presidente Carlos Menem, Giorgi afirmou que o governo anterior foi "excessivamente permissivo com o Brasil".
Ela considera que "não foram cumpridos os critérios assinados
e a imagem do Mercosul foi se desgastando. Agora precisa ser relançado, e para isso precisamos reverter essa atitude e sermos mais severos".
Giorgi afirma que nos dois anos anteriores à desvalorização do real, o governo argentino teve posições "demasiadamente frouxas" com o Brasil. "Isso ocorreu porque havia medo de provocar o pior cenário, que era a desvalorização. A Argentina cedeu, mas o pior cenário acabou ocorrendo mesmo assim."
Segundo a secretária de Indústria e Comércio, o país tem de se "esmerar" em recuperar o mercado brasileiro, para onde se destinam 30% das exportações industriais argentinas. "A manutenção do Mercosul é uma prioridade. Mas todas as regras devem ser cumpridas. E desta vez toca à Argentina fazer que sejam cumpridas", explicou Giorgi, deixando claro qual será a postura argentina nesta quarta-feira, quando os governos dos dois países se reunirão para levar a adiante a negociação sobre o regime automotivo, que está estancada há vários meses.
Giorgi considera que o setor automotivo é um dos mais "vulneráveis", e que por esse motivo "levaremos uma proposta ao Brasil que assegura conteúdo nacional e geração de valor agregado".
A secretária afirmou que diversos setores privados possuem acordos empresariais. "Ali não poderemos intervir. O setor de calçados tem um acordo que só termina em junho deste ano. Outros setores, como o do papel e o siderúrgico, também possuem acordos privados, e veremos como eles avançam."
Até um dia antes da posse de De la Rúa como presidente, no dia 10 de dezembro, Giorgi era a diretora da Consultora Alpha, especializada em temas industriais, e nunca havia tido experiência em cargos públicos.
Poucas horas antes de assumir, De la Rúa mudou de idéia sobre colocar o economista Miguel Bein no cargo de secretário de Indústria, Comércio e Mineração e optou por Giorgi.
A secretária Giorgi sustentou que o êxodo de indústrias argentinas para o Brasil "preocupa muito" o governo. "Tomamos posse há somente um mês, e estamos trabalhando para corrigir uma situação que é produto de vários anos. Não foi aplicada a severidade requerida na negociação com o Brasil. Não foram ouvidos os pedidos da indústria nacional, e além disso houve um contexto internacional que não ajudou", argumentou.
No entanto, admitiu que as medidas para brecar o êxodo fazem parte de um processo que "requer vários meses e sabemos que diante da atual situação, para algumas indústrias é muito tempo". Giorgi disse que para evitar o êxodo, o novo governo está disposto a utilizar "todos os mecanismos a seu alcance", mas "sempre dentro do marco legal da OMC e dos acordos do Mercosul".

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