Seca obriga fuga para grandes cidades
Sem emprego e com fome, nordestinos retomam rota para o Rio e tentam sobreviver com subempregos e solidariedade
Roberta Jansen
Agência Estado

Arquivo Folha
TristezaMorar de favor e viver de bico ou subempregado. Essa é a triste realidade dos nordestinos que estão fugindo da seca para os grandes centros em busca de uma vida melhor. Embora as estatísticas mostrem que o desemprego está em alta nas metrópoles, elas não chegam a intimidar os migrantes. Tudo é melhor do que passar fome. ‘‘Se aqui está ruim, lá está muito pior’’, conta Maria Martins, que chegou ao Rio de Janeiro no mês passado junto com o filho Gílson de Sousa. ‘‘Nossa roça secou, ninguém tinha emprego e muitas vezes ficamos sem ter o que comer.
Maria e seu filho moravam em Santa Quitéria, cidade a 400 quilômetros de Fortaleza, no interior do Ceará. Cultivavam uma roça de milho, feijão e mandioca, mas a seca matou a plantação. ‘‘A única comida que conseguíamos era farinha e rapadura, mas muitas vezes ficamos até sem isso’’, afirma. ‘‘Quase chegamos ao ponto de ter que comer calango. Sem opção, mãe e filho decidiram vir para o Rio. Conterrâneos que já haviam migrado para a cidade em outras secas enviaram o dinheiro para as passagens.
EsperançaNão há índice econômico de desemprego que consiga contradizer Maria, quando ela afirma que lá está muito pior do que aqui. Em menos de um mês, ela conseguiu um emprego de faxineira dos banheiros da Feira de São Cristóvão - tradicional feira de nordestinos da cidade. Durante a semana, trabalha como diarista, passando roupa e fazendo faxina. Seu filho conseguiu emprego como pedreiro em uma obra. A renda mensal dos dois não chega a R$ 400, mas, como ela mesma diz, lá era bem pior.
Maria está hospedada no Caju, na zona norte, na casa de outro cearense, Agamenon de Almeida, presidente da Feira de São Cristóvão, onde tem uma barraca de comidas típicas. ‘‘Tem muita gente chegando, expulso de lá por causa da fome’’, diz Almeida. ‘‘Sempre que chegam na feira tentamos ajudar.’ É contando com a solidariedade e o apoio dos parentes e amigos que vieram antes, que os migrantes desembarcam nas grandes cidades. ‘‘Quem consegue, vem, porque lá ficamos sem opção’’, diz Maria. Foi o caso também de Marlete Damasceno que na sexta-feira de manhã desembarcou na Rodoviária Novo Rio procedente de Ipu, cidade do interior do Ceará vizinha à Santa Quitéria.
Com duas filhas pequenas (uma de 3 anos e outra de 5), Marlete veio para ficar. ‘‘Infelizmente não deu para continuar a plantação’’, conta. ‘‘A coisa tá muito feia.’ Marlete veio para se encontrar com o marido, João Damasceno, que chegou à cidade há três meses e está trabalhando como churrasqueiro. ‘‘Nem sei ainda onde vamos ficar.’ O cozinheiro Erivaldo Rodrigo da Silva veio de Umari, outra pequena cidade do interior do Ceará. Os irmãos, que já estavam no Rio, mandaram o dinheiro da passagem, quando a roça que Erivaldo cultivava secou e até para comer estava difícil.
Erivaldo mora em um pequeno barraco em Bonsucesso, na zona norte, grande o suficiente para abrigar três conterrâneos que acabam de chegar ao Rio. ‘‘É uma emergência’’, diz. É principalmente dos nordestinos que arrumaram empregos que está vindo a maior ajuda às vítimas da seca. Garçons, cozinheiros, ajudantes de cozinha e faxineiros que trabalham nos bares da Cinelândia, no centro, já conseguiram reunir 500 quilos de alimentos para enviar às áreas mais críticas do Ceará. Quem coordena a arrecadação é o advogado Antônio Gílson de Oliveira, outro cearense que um dia, há 32 anos, também chegou ao Rio sem nada, fugindo da seca. ‘‘Eu conheço o lado cruel da seca, por isso me mobilizei.’
Como presidente da Feira de São Cristóvão, Agamenon de Almeida também está mobilizando os nordestinos que moram aqui para ajudar os conterrâneos. ‘‘Há dois domingos abrimos um posto de arrecadação de donativos na feira’’, conta. ‘‘Já conseguimos sete mil quilos de alimentos.’ A feira, que começa na tarde de sábado e só termina na tarde de domingo, emprega 9 mil pessoas nas suas 693 barracas de culinária e artigos típicos do nordeste. ‘‘Fazemos o que podemos para ajudar as pessoas.’

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