Santo ¶ngelo (RS), 26 - Castigada pela estiagem há pelo menos cinco anos, a região noroeste do Rio Grande do Sul prepara-se para enfrentar novamente pesadas perdas nas lavouras de verão. Nos 14 municípios da área de abrangência da Cooperativa de Trigo e Soja de Santo ¶ngelo (Cotrisa), a quebra estimada nas culturas de milho e soja chega a 243,5 mil toneladas.
O volume perdido até o momento representa uma redução de R$ 60 milhões na renda agrícola da região. Levando-se em consideração que a Cotrisa tem 7 mil associados operantes, cada um deles estaria, por enquanto, amargando um prejuízo de R$ 8,5 mil. O valor é alto, especialmente quando se toma como base o fato de que 75% dos agricultores têm áreas inferiores a 15 hectares, conforme a Secretaria Municipal da Agricultura.
A situação é mais grave nas lavouras de milho, explica o gerente técnico adjunto da cooperativa, João Becker. Segundo ele, poucos produtores estão fazendo a colheita normal
da safra. A maior parte utilizou o produto como silagem ou plantou soja ou a safrinha do milho diretamente por cima da lavoura prejudicada pela falta de umidade na fase de floração. A média de quebra nos 60 mil hectares dedicados ao milho na região já atinge 70%, calcula Becker. O rendimento esperado no início do plantio, em agosto e setembro passados, caiu de 55 para 16,5 sacas por hectare, reduzindo a produção que era estimada em 3,3 milhões de sacas para 990 mil sacas. A produtividade é apenas um pouco maior do que os 15 sacas por hectare obtidos na safra passada, a pior dos últimos anos. O rendimento também está muito abaixo da média histórica da região, de 50 sacas por hectare, revela o gerente. De acordo com ele, o desempenho é baixo devido às condições climáticas adversas da região, onde os dias e as noites são muito quentes no verão. "O milho precisa de noites amenas".
Safrinha - A esperança dos produtores para amenizar os prejuízos e pagar parte das dívidas, agora, é com a safrinha de milho, que pode ser semeada até o final deste mês. A área destinada ao replantio deverá chegar a 20% dos 60 mil hectares da lavouras principais. O clima, entretanto, é outra vez uma incógnita, pois a cultura se estende até abril e maio, quando há risco da ocorrência de geadas na região, com a aproximação do inverno. Além da quebra direta das colheitas, os constantes períodos de estiagem na região estão provocando a redução na aplicação de tecnologia nas lavouras.
Os produtores temem prejuízos maiores com insumos aplicados inutilmente nas plantações e procuram reduzir os custos. A própria Cotrisa tem uma política de estimular os agricultores a diminuírem as despesas de custeio nos anos em que a previsão do clima é ruim. A entidade orienta na escolha das sementes, na rotação de culturas e no plantio direto, diz Becker.
Gastos - Na soja, que ocupa uma área de 250 mil hectares nos 14 municípios da região, o quadro não é tão grave quanto no milho, mas as perdas já alcançam 1,75 milhão de sacas. Isto representa uma quebra de mais de 20% - por enquanto - dos 8,25 milhões de sacas previstas inicialmente. Segundo o gerente técnico adjunto da Cotrisa, João Becker, o rendimento estimado para a cultura caiu de 33 para 26 sacos por hectare. Uma das razões foi o atraso no plantio, que deveria se encerrar em 10 de dezembro, mas se estendeu até a semana passada devido à falta de chuva.
A baixa umidade do solo também provocou uma baixa densidade das lavouras e reduziu o desenvolvimento das plantas em alguns casos a menos da metade dos 80 centímetros a um metro de altura. Outra consequência foi o aparecimento de diversos tipos de pragas, como broca, lagarta, grilo, formigas e até gafanhotos. Becker afirmou que a situação também exigiu uma segunda aplicação de herbicidas, que passaram a representar 25% dos custos das lavouras. Esta é a razão, segundo ele, para a expectativa dos agricultores em utilizar as sementes de soja geneticamente modificadas -
as despesas com defensivos cairam a um terço das atuais. Mesmo assim, ele garante que não tem notícias de agricultores que utilizam sementes transgênicas na região.
Chuvas - As chuvas deste mês na região noroeste do Estado, embora amenizem o quadro de estiagem estabelecido desde o início de novembro e estimulem o plantio da safrinha de milho, foram insuficientes para reverter as perdas registradas nas lavouras. O gerente técnico adjunto da Cotrisa, João Becker, afirma que as precipitações foram localizadas e de intensidades variadas. De 9 a 18 deste mês, a chuva variou de 47 a 225 milímetros nos 14 municípios de abrangência da cooperativa.
Nos dois últimos dias, as precipitações limitaram-se a Santo ¶ngelo, Vitória das Missões, São Paulo das Missões, Porto Xavier e São Pedro das Missões, entre nove e 30 milímetros.
Segundo a Secretaria Municipal de Agricultura, no mês passado choveu apenas 49 milímetros em Santo ¶ngelo, quatro vezes abaixo do normal para a época do ano. Em janeiro a situação está se normalizando, mas ainda existem problemas no abastecimentos de água à população. Demanda - A estiagem que afeta as lavouras do noroeste do Estado do Rio Grande do Sul deverá
afastar os produtores da região dos leilões de opção de milho que o governo federal promete realizar no local a partir de março. A previsão é do gerente comercial da Cotrisa, Armindo Terhorst. Ele acredita na manutenção dos preços do produto em R$ 12,50 a saca de 60 quilos no período de colheita. "Opção é um mecanismo para quando se tem safra cheia e não frustrada", comenta. Somente nos 14 municípios onde a cooperativa atua a quebra da safra de milho é estimada em 138 mil toneladas - 70% da colheita prevista no plantio. Em todo o Estado, a Emater-RS calcula uma perda de 923,5 mil toneladas, o equivalente a uma quebra de quase 19%. Na opinião de Terhorst, o governo federal é "tímido" quando se trata de resolver os problemas da agricultura. Segundo ele, o programa Brasil Empreendedor Rural, lançado semana passada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, não trouxe "nada de novo" para o setor.
O estímulo à atração de financiamento internacional para a safra brasileira, para o gerente da Cotrisa, não elimina a necessidade de recursos oficiais com "juros adequados e menos
burocracia" para os produtores. Terhorst quer ainda um apoio mais forte ao trigo como forma de criar uma alternativa às lavouras de verão no noroeste gaúcho, castigado por fortes estiagens nos últimos cinco anos.
Fila- Pelo menos 30 agricultores faziam fila hoje em frente à sede da Secretaria Municipal da Agricultura do RS. Eles esperavam o início da distribuição da semente de milho, repassadas pelo governo estadual dentro do sistema troca-troca. Para cada saca de semente, eles terão que pagar sete sacas de produto na colheita da safrinha. A cena retrata as dificuldades enfrentadas pelos agricultores da região, atingidos por uma estiagem que começou em novembro do ano passado e ainda insiste em ameaçar as lavouras locais. "Recebemos hoje 400 sacas de 20 quilos de sementes", disse o secretário Juarez Lemos. Segundo ele, cada produtor terá o direito a duas sacas. "A safrinha de milho é o fio de salvação dos agricultores", afirma Lemos. A falta de água é, hoje, o maior drama das propriedades rurais do município, que já decretou situação de emergência. Desde o final de dezembro, a prefeitura abriu mais de 70 açudes e bebedouros da região. Sem recursos para investir no setor, o secretário reclama dos governos federal e estadual a falta de um programa de irrigação para solucionar definitivamente o problema da seca. "Irrigar uma propriedade sai muito caro e são necessários subsídios".
Compra de semente tem financiamento R$ 100 A coordenadora regional da Secretaria Estadual da Agricultura, Cecília Bernardi, explica que o governo estadual distribuiu 28 mil sacos de semente de milho pelo sistema troca-troca em 150 municípios do noroeste gaúcho.
Devido à gravidade do quadro, a operação foi realizada em caráter emergencial, em menos de três semanas. "A prioridade é que o agricultor plante a safrinha", afirma Cecília. "Somente depois disso é que se avaliará a necessidade de socorro financeiro", acrescenta a coordenadora. Em dezembro, o governo do Estado abriu uma linha de crédito subsidiado de R$ 100,00 por produtor no Banrisul para aquisição de sementes, mas apenas 1 mil das 5 mil famílias
visadas puderam ser atendidas. A maioria dos agricultores locais tem contratos com o Pronaf e a legislação federal impede que alguém toma dois financiamentos rurais simultaneamente, segundo Cecília.
Segundo a coordenadora, a secretaria está avaliando os pedidos de abertura de novos poços artesianos pelas prefeituras, mas pretende dar maior ênfase à instalação de redes da distribuição que façam a água chegar à população. "Há municípios com mais de dez poços parados", comenta.
Perda e dívida - O pequeno produtor Edemar Stroschon, que cultiva 20 hectares no distrito de Buriti, é um retrato de boa parte dos agricultores atingidos pela estiagem na região. Perdeu os oito hectares da primeira safra de milho (os 12 restantes então plantados com soja) e tomou um prejuízo de mais de R$ 600,00 na cultura, que será coberto com a venda de uma ou duas vacas. Otimista, Stroschon esperava colher 60 sacos de milho por hectare, mas a seca abateu a lavoura e o produtor transformou o produto em silagem para as 18 cabeças de gado que possui. Para bancar os custos com insumos, tomou um financiamento de R$ 1,8 mil no Banrisul. Como o valor passou de R$ 1,5 mil, extrapolou o limite do Pronafinho, que garantiria o "rebate" (desconto) de parte da dívida. Os problemas deverão continuar no plantio da safrinha, que ocupará 100% da área destinada ao plantio principal. A manutenção de níveis baixos de umidade do solo mais o ataque de uma praga de caturritas derrubaram a expectativa de resultado do segundo plantio para 10 sacos por hectare. Aos preços atuais, o agricultor não deve receber mais do que R$ 1,2 mil pela produção. Nem o Proagro pôde salvar o produtor.
Segundo Stroschon, o técnico da Emater-RS foi mais otimista do que ele e previu o rendimento do milho em 25 sacos por hectare, impedindo-o de receber o seguro. Este, só
pago para quem tira dez sacos ou menos do produto por hectare. O agricultor tem ainda 12 hectares de soja, que também terão sua produtividade reduzida pela estiagem. "Vai dar 26 sacos por hectare; poderia ter ido a 30". Com uma dívida de US$ 800 pela compra de defensivos na safra anterior, um trator Valmet,fabricado em 1978, que precisa de reformas avaliadas em R$ 5 mil, Stroschon ainda procura manter o ânimo. "Tem gente em pior situação; não conseguiu plantar nem pagar o banco na safra passada e agora ficou de fora". A falta de capital de giro e de matéria-prima para a produção de ração mudou também a estratégia do produtor e dos seus 11 sócios no condomínio de criação de suínos. Antes eles entregavam animais terminados com 100 quilos em sistema de integração com uma indústria frigorífica do Estado a R$ 118,00. Agora, enviam o leitão com 21 dias e seis quilos por R$ 22,00, com lucro de R$ 10,00 por cabeça, pois não têm como esperar quatro meses terminar o animal e lucrar R$ 18 00 por unidade. Com dois filhos, Stroschon espera que o Brasil conte um dia com uma política agrícola
definida e favorável aos produtores. Até lá, vai esperar. "Fazer o quê? Ir para cidade e virar marginal?", questiona.

mockup