Seca e queimadas avançam no Norte
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de julho de 1998
Edson Luiz Agência Estado 
Arquivo FolhaTerra sem vidaRio Branco sofre pior seca dos últimos 27 anos e é atingida por fumaça das queimadas que ocorrem no Centro-OesteA seca no arco do desmatamento, que vai do noroeste do Pará ao Acre, já está provocando prejuízos em alguns Estados. Em Rio Branco, capital acreana, o abastecimento de água está reduzido em 60% por causa da seca do rio, enquanto ao longo da BR-364, que liga o Acre a Rondônia, as queimadas avançam em campos e florestas e já prejudicam o tráfego de veículos. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a estiagem vai se prolongar até outubro.
Depois do incêndio que atingiu 12% do Estado de Roraima, o governo federal começou a se preocupar com a região conhecida como arco do desmatamento, onde está o maior foco de devastação da Amazônia. O arco tem início no noroeste do Pará - onde estão concentradas centenas de madeireiras - atravessa o sudoeste do Maranhão e o norte de Mato Grosso, chegando ao norte de Rondônia e ao Acre. Essa região corresponde a três quartos de floresta desmatada na Amazônia.
Um estudo feito no ano passado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), organização não-governamental do Pará, constatou um avanço, nos últimos anos, de fogo acidental em grandes propriedades do arco do desmatamento. Essa também foi uma das principais causas do incêndio em Roraima, que se estendeu de fevereiro a abril, quando o Estado passava por uma grande estiagem.
Trafegar pelos 550 quilômetros da BR-364, entre Rio Branco e Porto Velho (RO), hoje é um risco por causa da intensa fumaça causada pelas queimadas em pastos e floresta. Em alguns trechos o fogo já atinge as margens da rodovia. É fogo que fugiu do controle da gente, afirma o agricultor Raimundo de Souza Rodrigues, morador de Extrema, uma vila a 185 quilômetros de Rio Branco. Em Jaci-Paraná, uma pequena cidade a 80 quilômetros de Porto Velho, muitos moradores tiveram problemas de saúde por causa da fumaça. Segundo um policial militar, muitas crianças foram enviadas para Porto Velho com problemas respiratórios.
Rio Branco é, hoje, uma das cidades mais afetadas pela seca e as queimadas. Pela manhã e no final da tarde, a fumaça é intensa. Segundo técnicos do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a cidade é atingida também pela fumaça das queimadas da região Centro-Oeste, principalmente Mato Grosso e Goiás. O rio Acre, que abastece Rio Branco, está praticamente vazio. É a maior seca dos últimos 27 anos, informa o presidente da Companhia de Água e Esgostos de Rio Branco (Saerb), Sebastião Fonseca.
Na sexta-feira, os técnicos da prefeitura fizeram uma reunião de emergência para avaliar a situação. O nível do rio era de 2,56 metros, e as bombas da estação de captação de água já estavam descobertas, dificultando o abastecimento, já comprometido em 60%. Por esse motivo, a prefeitura está estudando a possibilidade de decretar estado de emergência no município. Até o Corpo de Bombeiros de Rio Branco tem dificuldades para apagar os inúmeros focos de incêndio que surgem pela cidade.
As últimas chuvas na região ocorreram em junho e a estiagem deve se prolongar até outubro, afirma o chefe da previsão de tempo do Inmet, Francisco de Assis Diniz. Segundo ele, a seca deve se estender também para o centro-oeste do País, podendo provocar focos de incêndio. No sábado, o Ibama promoveu uma teleconferência para alertar agricultores da Amazônia sobre o perigo das queimadas durante o período da seca.


