Porto Alegre, 16 (AE) - A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) encerrou hoje sua 51ª Reunião Anual com uma estratégia de alianças, definida para aumentar sua influência sobre a distribuição de recursos à pesquisa no País, e um novo posicionamento sobre o projeto de autonomia que o governo federal pretende implantar na universidade pública. Por trás deste projeto, há a avaliação de que tanto o Ministério da Educação (MEC) e, principalmente, o da Ciência e Tecnologia (MCT) enfrentam seu momento de maior fragilidade dos últimos anos, o que praticamente obriga a SBPC a desempenhar um papel político mais acentuado.
A SBPC estabeleceu, de um lado, uma articulação mais forte com o Fórum dos Secretários Estaduais de Ciência e Tecnologia, reunido dois dias durante o encontro anual. Tanto os representantes dos governos estaduais quanto da entidade admitem que esta aproximação proporciona uma "simbiose das mais perfeitas", como disse o secretário gaúcho e coordenador do Fórum, Adão Villaverde, reforçando o poder político de ambas as partes nas disputas por mais verbas, constantes e melhor distribuídas entre as regiões do País.
A aliança com os secretários estaduais oferece para a SBPC um interlocutor político importante para o encaminhamento de proposições com chances razoáveis de implementação. "Temos consciência da necessidade de articulação com a comunidade científica para delinear um projeto de desenvolvimento que enfrente a dependência tecnológica externa e as desigualdades regionais", enfatizou Villaverde. Na opinião dele, o País possui hoje apenas "fragmentos" de política de ciência e tecnologia e os 10% de aumento no orçamento do MCT neste ano representam muito pouco levando-se em consideração que 1998 foi o "fundo do poço", com uma verba de R$ 700 milhões.
No campo do projeto de autonomia universitária, a entidade pretende sair da posição "reativa" e extrapolar as discussões hoje restritas aos limites das propostas do governo, disse Hélgio Trindade, ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Conselho Deliberativo da SBPC. De acordo com o cientista político, o programa da diretoria empossada esta semana incorporou a área da educação aos seus objetivos centrais de ação, ao lado da ciência e tecnologia.
"A SBPC compreendeu que a universidade pública, onde concentram-se 90% das pesquisas do País, é fundamental para o desenvolvimento da ciência e tecnologia", explicou Hélgio. Segundo ele, hoje já existe uma "visão solidária", expressa no programa da nova gestão da entidade, de que a crise é comum a ambas as área. A idéia é consolidar uma "frente" com entidades como a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Federais de Ensino Superior (Andifes) e a Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes).
"Todos concordam que tem que haver uma mudança na universidade, mas é preciso interferir na orientação das novas políticas", afirmou Hélgio. Ele identifica um crescente processo de "desfinanciamento" das universidades federais e um risco progressivo de "paulistização" do ensino superior. De acordo com ele, a USP, Unicamp e Unesp recebem de R$ 2 bilhões a R$ 2,5 bilhões por ano, quase metade dos R$ 5,5 bilhões destinados anualmente às 52 universidades federais do País.
A linha estratégica de articulação da nova diretoria da SBPC leva em conta que "educação, ciência e tecnologia só dão resultados se forem pensadas num horizonte de longo prazo", reforça a presidente recém-empossada, Glaci Zancan, doutora em bioquímica e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela reiterou as críticas à escassez e inconstância dos repasses de recursos federais para a pesquisa e confirmou que a SBPC busca "alianças" com outros segmentos da sociedade para atingir com maior eficácia "o centro do poder".
"Cada entidade tem seu nicho de atuação e por isso é necessário estabelecer pontes entre elas", disse a presidente. Ela afirma que a diretoria ainda não discutiu os mecanismos e escalas de integração, mas assegurou que o "somatório de esforços" com outras instituições como Andifes e Andes é "crescente". A aproximação com o Fórum de Secretário, segundo a professora, coloca para a SBPC um interlocutor fundamental para a luta pela desconcentração do financiamento à pesquisa no Brasil. Transgênicos - Se na articulação político-institucional a 51ª Reunião Anual trouxe avanços para a SBPC, a avaliação corrente em torno dos debates em relação ao plantio e comercialização de transgênicos expôs divisões importantes na comunidade científica. A posição oficial da SBPC, de que ainda são necessários cinco anos de testes total, não mudou, mas cientistas de expressão como o geneticista Francisco Salzano, defenderam a liberação imediata. Todos, porém, ressaltaram a importância da manutenção das pesquisas no setor. "Sabemos muito pouco a respeito do tema", disse Glaci Zancan.
Outro ponto importante no encontro encerrado hoje foi com relação ao Mercosul. Os debates, simpósios e conferências sobre o assunto revelaram uma visão ainda acentuadamente nacional a respeito do processo de integração. "Ficou demonstrado que ainda não houve a quebra das fronteiras e falta um longo caminho a ser percorrido até a efetiva integração entre as comunidades dos países envolvidos", comentou a presidente da entidade.
Ao todo, durante cinco dias, foram realizadas 38 conferências, 87 simpósios e 42 minicursos na 51ª Reunião Anual da SBPC, no campus da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre. Também foram expostos em painéis 3,9 mil trabalhos relativos a praticamente todos os campos da ciência. A Expociências, a Exposição Institucional e a Feira do Livro ocuparam uma área de 1,2 mil metros quadrados e, de acordo com a organização do evento, 40 mil pessoas visitaram a reunião durante toda a semana.

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