Nem as cobras que frequentam o fundo de vale atrás do Jardim Neman Sahyun (Zona Sul de Londrina) incomodam os moradores do local tanto quanto a falta de água limpa. Para suprir as necessidades básicas do dia-a-dia, como cozinhar, lavar roupa, tomar banho e até matar a sede, as famílias só contam com um riacho que, segundo elas, está contaminado.
O local funciona como uma espécie de chácara, onde quatro famílias habitam e mantêm uma pequena criação de gado e aves. De acordo com o presidente da Associação de Moradores do Jardim Montebelo (Zona Sul), Valdecir Barbosa, que representa também os moradores do fundo de vale, as famílias que hoje residem ali foram ''transferidas'' há cerca de uma década, quando o dono da área que compreende o Neman Sahyun resolveu lotear o local. ''O dono daquele sítio loteou e jogou o pessoal aqui para baixo. Existe até um pedido de indenização das famílias na Justiça'', explica.
Mesmo vivendo em condições precárias, moradores entrevistados pela Folha afirmaram que gostam do local e que só reivindicam abastecimento de água potável. Beatriz Rodrigues da Silva, 65 anos, cria gado na chácara improvisada e considera que o local é adequado até para as crianças. ''Nós não podemos pagar aluguel nem comprar uma propriedade. Aqui pelo menos é sossegado. Se muda para perto de uma favela é uma dureza, os filhos podem se meter com tráfico'', se preocupa. Beatriz mora há 40 anos nas redondezas e diz que, no fundo de vale, os problemas com a água começaram há cerca de três anos.
''Essa água começou a fazer mal para as crianças, as maiores e as pequenininhas. Elas têm vômito, diarréia e umas manchas na pele'', conta. O autônomo Júlio Rodrigues de Abreu, 24, acredita que o riacho recebe a água que desce do Jardim Neman Sahyun com vários dejetos, já que o bairro não tem rede de saneamento. ''Eles não têm esgoto e acaba vindo uma tranqueirada para cá'', argumenta. A solução encontrada pelos moradores foi emprestar água dos vizinhos de cima, pelo menos para beber e cozinhar.
Mesmo depois de constatada a contaminação, as crianças continuam fazendo a festa no riacho: brincam, bebem a água e lavam-se. ''Eu bebo. É limpa'', diz o ingênuo Natan, 4 anos, contrariando as recomendações do pai. Fernanda, 8, afirma que não toma banho naquelas águas porque são ''geladas'' e não bebe porque sabe que são contaminadas. Entretanto, é flagrada lavando o rosto com abundância no riacho.
De acordo com Beatriz, funcionários da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) estiveram no fundo de vale em janeiro deste ano, colheram amostras da água e garantiram a inclusão do local na rede de tratamento. ''Eles vieram, prometeram e nós estamos esperando. Só queremos água limpa, mais nada''. Ontem, por ser domingo, a reportagem não pôde contatar a direção da Sanepar.

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