O aumento da hospitalização de crianças e adolescentes por transtornos mentais e comportamentais chama a atenção da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). Conforme levantamento divulgado pela entidade com base em dados do Ministério da Saúde, 18,2 mil crianças e adolescentes de todo o País com idade entre 0 e 19 anos chegaram a ser internados no ano passado pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em razão de doenças mentais. Apenas na faixa etária de 15 a 19 anos foram mais de 14,4 mil internações, maior índice desce 2009.

Anualmente, adolescentes entre 15 e 19 anos representam o maior número de internações por transtornos mentais e comportamentais
Anualmente, adolescentes entre 15 e 19 anos representam o maior número de internações por transtornos mentais e comportamentais | Foto: iStock

O crescimento expressivo da hospitalização de pacientes entre 10 e 14 anos também preocupa os especialistas. Considerando essa faixa etária, as internações dobraram e houve um salto de 1.508 (em 2009) para 3.128 (em 2018). No acumulado dos últimos dez anos, o Ministério da Saúde registrou quase 25 mil pacientes internados nessa faixa etária. As estatísticas incluem transtornos de humor, transtornos mentais e comportamentais ocasionados pelo uso de substâncias psicoativas e de álcool, demência, esquizofrenia, entre outras doenças.

Imagem ilustrativa da imagem Saúde mental de crianças e adolescentes em xeque

A pediatra e integrante do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da SBP, Ana Márcia Guimarães Alves, destaca que houve aumento na incidência de todos os transtornos ligados ao neurodesenvolvimento. A depressão, porém, é uma das doenças mais preocupantes em razão do possível risco de suicídio.

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| Foto: Folha Arte

“Existem fatores genéticos e ambientais. Os fatores ambientais são crianças sobrecarregadas com agendas repletas de atividades extracurriculares em que não sobra tempo para brincadeiras livres, para momentos de ócio criativo e para o desenvolvimento de habilidades. O uso exagerado e não supervisionado da tecnologia também causa um desarranjo na arquitetura cerebral das crianças em virtude do excesso de exposição à tela. Tudo isso contribui para uma doença mental”, explica.

Anualmente, adolescentes entre 15 e 19 anos representam o maior número de internações por transtornos mentais e comportamentais, conforme dados do Ministério da Saúde. Nos últimos dez anos, mais de 130 mil foram hospitalizados nessa faixa etária. Nesse período, além do aumento na incidência de transtornos mentais, a SBP avalia que houve maior divulgação das doenças, busca por assistência médica e melhoria nas notificações.

A pediatra alerta que a negligência por parte dos pais, a falta de acesso a profissionais qualificados e a recusa ao diagnóstico e ao tratamento em razão ainda do preconceito relacionado aos transtornos mentais e comportamentais podem ter consequências negativas para toda a sociedade.

“Existem essas barreiras. Crianças e adolescentes com transtornos não tratados vão impactar na sociedade toda no futuro porque eles poderão se tornar adultos disfuncionais, que não conseguem exercer todo o potencial e capacidade intelectual que possuem. Então todo o País sofrerá as consequências dessa disfuncionalidade dos pacientes não tratados. É uma preocupação que o governo deveria ter se quisesse sair de um país subdesenvolvido para um país desenvolvido”, defende Alves.

Isolamento, dificuldades na interação social, distúrbios do sono, agressividade, irritabilidade e distúrbios alimentares estão entre os sinais de algumas das doenças que fazem parte das estatísticas.

Caps Infantil registra aumento na demanda em Londrina

A quantidade de atendimentos no Caps Infantil (Centro de Atenção Psicossocial para Infância e Adolescência), na Vila Nova, região central de Londrina, aumentou de 385 (média mensal registrada até o ano passado) para, aproximadamente, 510 por mês em 2019. A enfermeira e coordenadora dos trabalhos, Silvana Aparecida Valentim, conta que casos de depressão, psicose, tentativa de suicídio e automutilação estão entre os motivos para a busca por ajuda.

Uma das condições para o início e continuidade dos tratamentos é a participação efetiva das famílias em oficinas e atividades propostas pela equipe multidisciplinar. “Já recebemos crianças de 6 anos com pensamento suicida. Há muitos casos em que a criança é só a ponta do iceberg. Na verdade, a família inteira é doente, é desestruturada. Os pais, os que convivem com os filhos, passam tanto tempo fora e, quando chegam em casa, na verdade não chegam porque ainda permanecem muito tempo nas mídias, no celular, nas redes sociais... A ponto de a criança simplesmente desistir de estar ali. A doença surge como uma resposta para a dor”, lamenta.

icon-aspas "Na verdade, a família inteira é doente, é desestruturada"

O excesso de informações, a dificuldade em lidar com a frustração, a vida fantasiosa nas redes sociais e a falta de diálogo entre pais e filhos podem desencadear transtornos, segundo a coordenadora do Caps. Ela acrescenta ainda que crianças e adolescentes precisam de rotina, porém com flexibilidade de horários e sem excesso de atividades. “É preciso conversar sempre e perceber o momento em que a criança não estiver dando conta. Não é frescura”, frisa.

O Caps Infantil não possui leitos para internação, mas a equipe recorre à Central de Regulação de Leitos para viabilizar vagas, quando necessário. O Centro de Atenção Psicossocial para Infância e Adolescência funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h. Os telefones para contato são (43) 3379-0739 e (43) 3379-0130. O endereço é rua Joá, 46, Vila Nova.

Hospitalização por uso de substâncias psicoativas cresce 41%

Transtornos de humor ou afetivos, transtornos neuróticos e os relacionados ao estresse e transtornos ocasionados pelo uso de substâncias psicoativas são os três principais tipos que levaram à hospitalização de crianças e adolescentes em todo o País nos últimos dez anos. Entre as substâncias psicoativas consumidas estão medicamentos ansiolíticos e sedativos, alucinógenos, drogas ilícitas, solventes e estimulantes. As internações por transtornos mentais ou comportamentais causadas pelo uso dessas substâncias saltaram de 510 (em 2009) para 717 (em 2018) na faixa etária entre 0 e 19 anos.

icon-aspas "Apesar de tudo, a gente está firme e não vai desistir"

“Meu filho começou a ter alucinações enquanto comia. Começou a ver coisas no prato e achamos estranho”, conta o trabalhador do setor da construção civil F. O. Na época, o menino com dez anos foi levado ao hospital. Lá os pais foram alertados que a criança havia consumido drogas. “Ele ficava na escola durante um período. No outro ficava na casa da avó e acabava passando muito tempo na rua brincando com os amigos, mas a gente não imaginava que era isso”, lamenta o pai.

O menino desenvolveu esquizofrenia e passou a ser acompanhado pela equipe do Caps Infantil em Londrina. Entre melhoras e recaídas, hoje, aos 17 anos, ele permanece internado. “Nossa vida para a cada recaída. Largamos tudo para acompanhar o tratamento dele, mas é muito difícil. Apesar de tudo, a gente está firme e não vai desistir. É nosso filho.”

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