Cobrir a boca com a mão ao sorrir é um claro sinal de timidez, mas esse não é um hábito exclusivo de envergonhados por natureza. É também um recurso daqueles (extrovertidos até) que sofrem apenas de uma vergonha específica: da própria boca. Dentes tortos, estragados ou faltando são como cárie para a auto-estima, corroem a vontade de sorrir.
''Os pacientes chegam ao consultório muito constrangidos: além de vergonha, sentem culpa'', afirma o cirurgião dentista Conrado Ferreira Pinto. Esse constrangimento favorece velhas desculpas para se adiar a ida ao dentista: medo e falta de tempo. Quem tem vergonha sente mais receio e, convenientemente, nunca arranja tempo.
Ferreira Pinto criou e patenteou o conceito de Spa Odontológico, que, além de oferecer tratamento em um único dia (exceto para próteses definitivas, que precisam ser encomendadas), oferece assistência psicológica. Outra medida de praxe é oferecer ao paciente uma prótese provisória, feita na hora, para que possa aguardar, com dentes, a peça definitiva. ''Ninguém precisa sair desdentado de uma extração.''
No Brasil, apenas 55% dos adolescentes têm todos os dentes. Entre os adultos, o número cai para 54% e, entre idosos, para 10%. Ao todo, são 30 milhões de brasileiros desdentados, segundo uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde no início do ano. Cerca de 8 milhões precisam de prótese dentária completa, a dentadura.
''A perda de dentes é uma mutilação'', afirma Gustavo Lacerda, professor de prótese dentária da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. ''Uma paciente escondeu a vida inteira no marido que usava dentadura, era seu grande segredo'', conta. ''Outra, bem velhinha, chorou na hora de extrair o último dente, o único por muitos anos. Tinha se apegado a ele.''
Às vezes, a auto-estima sucumbe por conta de problemas bem mais simples, como o mau hálito. Mais de 90% dos casos de halitose decorrem de problemas bucais - apenas uma minoria está relacionada a falhas digestivas. Dentes tortos, quebrados ou com restaurações malfeitas podem acumular sujeira e gerar odores desagradáveis, assim como inflamações, como gengivite e periodontite.
Mas a principal vilã é mesmo a língua, que, recoberta por um tecido esponjoso, acumula restos alimentares. Há no mercado peças de plástico para a higiene lingual, que também pode ser feita com uma colher de sopa, raspando suavemente a superfície, do fundo à ponta.
O ortodontista Ivan Valle conta que a maioria dos pacientes que chegam ao consultório reclamando de problemas de mordida estão, na verdade, mais preocupados com a aparência. ''Costumo dizer que faço um trabalho orto-emocional'', afirma. ''É bom ver que, no final do tratamento, as pessoas começam a se vestir melhor e mudam até o corte de cabelo.'' A verdade é que saúde bucal é como flúor para o amor próprio.

mockup