Caciques de dez reservas caiapós do Sul do Pará se comprometeram ontem, em Brasília, a interromper por dois anos a venda de mogno para madeireiros. Pelo acordo feito com o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, quem passa a vender as árvores já derrubadas nessas reservas é a Fundação Nacional do Índio (Funai). ‘‘Em vez de os índios serem instrumento de devastação, servirão de barreiras’’, afirmou o ministro.
Pelo acerto, o dinheiro de venda da madeira já tirada será entregue aos índios. A estimativa de Sarney Filho é de que serão US$ 6 milhões. Depois desse período os caiapó passarão a depender de receitas obtidas com planos de manejo e projetos feitos em conjunto pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Fundação Nacional do Índio (Funai) e comunidade indígena.
O presidente do Instituto Sócio-Ambiental (Isa), Márcio Santilli, que já presidiu a Funai, alertou que os US$ 6 milhões são suficientes apenas para 99. Ele comentou que a exploração predatória de madeira em áreas indígenas foi estimulada pelo governo militar, que nos anos 80 trocou demarcação de terra pela permissão de entrada do homem branco nas reservas para extrair ouro e madeira. Com os royalties que recebia, houve cacique que comprou até avião.
Santilli advertiu as autoridades presentes à cerimônia de ontem de que os índios aceitam não vender madeira, ‘‘mas querem assistência’’. Como a maioria dos índios não fala português, Santilli pediu ao intérprete que fizesse um alerta ao grupo para que pressione. ‘‘Se vocês voltarem para a área, sentarem quietos esperando pelo governo, não vai acontecer nada’’.
‘‘Se acaso não for para frente o acordo, vamos ver outro tipo de trabalho’’, já havia ameaçado o cacique Kubei Caiapó, que ao contrário do restante do grupo não tinha o corpo pintado . Ele disse que os índios queriam tranquilidade. ‘‘Não queremos ouvir conversa ruim ou fofoca’’, cobrou o cacique. Os índios entoaram a canção da vitória, depois da assinatura do acordo.
Os índios aceitaram negociar com o governo para fugir da exploração dos madeireiros. ‘‘Os madeireiros deram o calote nos índios’’, contou o presidente do Ibama, Eduardo Martins, que calcula já terem sido derrubados 10 mil metros cúbicos de madeira das reservas caiapó.
‘‘Todos os anos os madeireiros diziam que estávamos devendo a eles e, por isso tirariam mais madeira no ano seguinte’’, revelou o cacique Kubei. Segundo o diretor de fiscalização do Ibama, Rudolfo Lobo, na maioria das vezes o madeireiro não dava dinheiro para os índios, mas bancava compras de mercado, gastos com combustível,compra de carros e até horas de vôo.
O presidente do Sindicato da Indústria e do Comércio de Madeira e Derivados (Sindi-Indústria) da região de Redenção, João Francisco, explica que nos contratos os madeireiros aceitavam pagar cerca de R$ 50,00 por metro cúbico de mogno, mas antes mesmo de retirar a primeira tora da reserva eram obrigados a pagar contas dos índios. Ele diz que os índios não são tão inocentes. ‘‘Houve casos em que o índio recebeu duas ou três vezes pelo mesmo contrato’’, afirma, reconhecendo também que no seu meio há cerca de 10% de maus profissionais que ‘‘dão prejuízos a qualquer um: do índio ao industrial de São Paulo e Santa Catarina.’’

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