Sarney diz que modelo do Mercosul está ameaçado
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terça-feira, 12 de outubro de 1999
Por César Felício 
Brasília, 13 (AE) - O ex-presidente e senador José Sarney (PMDB-AP) afirmou hoje que a crise comercial entre o Brasil e Argentina está ameaçando a sobrevivência do atual modelo do Mercosul. Segundo o senador, os problemas comerciais bilaterais não são circunstanciais, mas estruturais. "O modelo aduaneiro de tarifa zero está totalmente esgotado, porque agora estamos diante do problema dos regimes cambiais diferentes", disse Sarney em pronunciamento no plenário do Senado.
Segundo o ex-presidente, "ou marcharemos para uma moeda comum, ou será feito um ajuste macroeconômico coordenado, ou tudo irá se desestruturar", disse. De acordo com Sarney, que como presidente lançou o projeto de mercado comum sul-americano em 1985, em conjunto com o então presidente argentino Raúl Alfonsín, a semente da atual crise foi plantada em junho de 1990
quando os presidentes Fernando Collor e Carlos Menem decidiram encurtar de dez para cinco anos o prazo para a formação de uma área de livre comércio.
Na avaliação de Sarney, o Mercosul então transformou-se somente em um instrumento de política comercial, sem mecanismos para a resolução de divergências. "Foi uma mudança de rumos, porque a visão inicial era ir muito além de termos apenas uma zona aduaneira, e sim uma integração total entre as nações, adotando o modelo europeu de mercado comum", afirmou, acrescentando que "se existisse um ministério específico para dirimir divergências e uma coordenação das políticas macroeconômicas, problemas como os de hoje não aconteceriam", disse.
Sarney condenou as ameaças do governo brasileiro de adotar medidas retaliatórias às elevações de tarifas feitas pelo governo argentino. "Nossas relações não comportam nenhuma medida de retaliação e muito menos o encaminhamento das discussões para a Organização Mundial do Comércio", disse o ex-presidente, para quem "Brasil e Argentina estão condenados ao diálogo e à reformulação do Mercosul, buscando na prateleira as idéias que ficaram ultrapassadas em 1990".
O ex-presidente ironizou as iniciativas que estão tramitando no Congresso em relação à integração dos dois países. "Fora dos temas de âmbito comercial, a prova que avançamos pouco são os acordos entre Brasil e Argentina que faltam ser aprovados", afirmou, indagando: "Como é possível, depois de quinze anos de aproximação, estarmos votando ainda um acordo para estabelecer um centro único de fronteira em São Borja ou a isenção de vistos de trabalho?". Para Sarney, "o que deveríamos estar votando é a abolição de postos fronteiriços e uma carteira de identidade única dos dois países; atualmente, estamos patinando".


