Marcos Zanatta
Considerada uma das cidades mais violentas do Paraná há menos de cinco anos, Sarandi (7 km a leste de Maringá) é hoje o que pode se chamar de exemplo de união contra a criminalidade. Polícia, Justiça e comunidade trabalham unidas e os resultados aparecem. Dos 25 homicídios registrados em 1994, a média vem caindo e ficou em nove casos no ano passado e cinco de janeiro até a semana passada. Os roubos à mão armada também despencaram de 20, há cinco anos, para seis ocorridas nos seis primeiros meses de 99. Dos 69 homicídios ocorridos nos últimos cinco anos, apenas um não foi solucionado.
Pelo menos 99% dos casos são solucionados. Quando se trata de crime contra a vida, o empenho da polícia é de garantir a prisão dos envolvidos. Se a prisão não é no flagrante, é requerida a preventiva. Mais de 95% dos autores de crimes foram condenados, sempre com penas superiores a 12 anos de prisão.
‘‘Para chegarmos a esse resultado, foi essencial a elaboração de um inquérito bem elaborado e da ação rápida da Justiça’’, explica o delegado de Sarandi, José Aparecido Jacovós. Ele está há exatos cinco anos no cargo e acha que, além da punição rápida dos criminosos, é preciso de apoio da comunidade.
Quando chegou em Sarandi, em maio de 1994, Jacovós deparou com uma delegacia sem estrutura. O município nunca havia tido um delegado de carreira e a delegacia contava apenas com pessoal cedido pela prefeitura. ‘‘Sem preparo para garantir a segurança que a cidade precisava’’, lembra. Na época, Sarandi era conhecida como ‘‘Baixada Fluminense’’ e até a polícia tinha receio de entrar em algumas favelas. Até um político da cidade chegou a afirmar na imprensa que quase 10% da população era de marginais. ‘‘Isso representava, na época, cerca de 5 mil habitantes’’, conta Jacovós.
A primeira medida de impacto que o delegado tomou foi de cadastrar todos os moradores dos bairros mais críticos. Com autorização da Justiça e ajuda do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar e do Grupo Tigre, da Polícia Civil, todas as casas foram visitadas e os moradores identificados.
Na época, a polícia conseguiu um mandado coletivo, de 46 casas suspeitas na mesma rua. Quem tinha mandado era levado para a delegacia e os suspeitos tinham a vida levantada. ‘‘Foi o primeiro passo para controlar a cidade’’, lembra Jacovós. Junto com a medida, a polícia começou a trabalhar na caça e punição dos criminosos.
A polícia, segundo Jacovós, não ‘‘descansava’’ até solucionar os crimes, desde uma ameaça até um homicídio. Os resultados começaram a afugentar os marginais e, o mais importante, fazer da população uma aliada no combate à violência. Ele recorda que em 1993 o descrédito da população com a polícia era tanto que depois de um estupro moradores queimaram a casa de um suspeito e ainda cercaram a delegacia ameaçando até a polícia. ‘‘Onde a população não confia na polícia não existe denuncia’’, afirma o delegado.
Ele defende a tese de que quando o criminoso não é punido, serve de exemplo para quem já está mal-intencionado. ‘‘O cara vê um homicida andando tranquilo pela rua e logo pensa que a impunidade é a regra’’, diz. Hoje, qualquer crime que acontece na cidade é solucionado em poucas horas. Jacovós relembra o assassinato do vereador Luiz Zanchin (PPS), morto em novembro de 1997 na porta da casa onde morava. Graças à informações da população, o crime foi solucionado em 48 horas.
Além de denunciar, a comunidade ajuda a polícia. A delegacia foi toda informatizada, ganhou circuito interno de vídeo e duas celas para abrigar menores e mulheres presas. Tudo doado por comerciantes e pessoas da cidade. A população também se sente mais segura com esse comportamento.
Jacovós enfatiza que as festas populares da cidade, há alguns anos, nunca acabavam com pelo menos uma morte. Agora, a situação é outra. Durante a última Exporandi, uma espécie de feira industrial da cidade, e a festa da uva, realizada em maio, não foi registrada nenhuma ocorrência. A comunidade ajudou também a cobrar melhorias na estrutura que contribuiu para a redução da violência.
Nos últimos anos, o município ganhou um pelotão da Polícia Militar e virou comarca. ‘‘O trabalho em conjunto com PM e Justiça reflete muito mais nos resultados’’, afirma Jacovós. Ele revela que no ano passado foram enviados 300 inquéritos ‘‘concluídos’’ para a Justiça e 650 crimes circunstânciais. Graças também à mudança em algumas regras, a polícia e Judiciário têm agilizado os processo de crimes menores. Os que prevêem pena de até um ano são enviados diretos para a Justiça, passando por uma equipe de conciliadores.
A luta agora, segundo o delegado, é de transformar o pelotão da Polícia Militar de Sarandi em companhia, melhorando o trabalho preventivo. Também cobrar para que os crimes com até dois anos de pena sejam incluídos na lei de julgamento pelo juizado especial. ‘‘Vamos conseguir melhorar ainda mais a segurança da cidade’’, acredita.

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