Porto Alegre, 26 (AE) - O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, apelou nesta segunda-feira (26) em favor de uma trégua no conflito da Iugoslávia. "É urgente, é necessário que se volte à negociação política", pediu.
"Para isso, seria necessário uma trégua. Mas a Otan não parece disposta a isso", lamentou. Saramago manifestou-se pelo fim das hostilidades em entrevista coletiva na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, onde recebeu o título de doutor honoris causa e proferiu aula magna.
Ele acha que negociar é a maneira de se chegar "a uma paz suficientemente duradoura". Saramago criticou o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, a quem chamou de "criminoso" e genocida, mas não poupou os Estados Unidos e seus aliados da Otan. A fórmula que considera ideal envolveria uma derrota de Milosevic mas sem que Otan possa emergir como vencedora.
Ele ironizou a atitude de autoridades da Otan que propõem o que chamou de "guerra com prazo", ao relembrar o prognóstico de acabar o conflito em setembro. "Porque não em agosto ou outubro? Ou ficar todo o tempo em guerra que seria mais divertido?" indagou, questionando "o absurdo" de marcar um tempo para finalizar o confronto.
Lastimou que "ninguém nos diga a verdade" desde a Guerra do Golfo. "As guerras parecem guerras de brincar. Provavelmente só exista uma coisa de autêntico. Chamam-se mortos", reparou.
O autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" demonstrou indignação com a posição dos EUA. "Um general norte-americano disse em Bruxelas que não há fronteiras para a Otan. Parece que a Otan poderia intervir em toda parte onde seus interesses, sempre coincidentes com os dos Estados Unidos, estejam em risco", censurou.
Recordou o bombardeio da fábrica de medicamentos do Sudão realizado pelos EUA - pela suspeita de que ali estariam sendo produzidas armas químicas que poderiam afetar algum cidadão norte-americano - e estabeleceu uma comparação mordaz.
"Para dar uma idéia do absurdo que isto representa já disse que se passar pela cabeça do Sr. Clinton que um dos meus cães pode vir a morder um cidadão norte-americano que esteja de férias na ilha de Lanzarote (onde Saramago vive), ele irá bombardear a minha casa..."
Saramago tratou rapidamente do aniversário de 25 anos da Revolução dos Cravos, transcorrido no domingo e que livrou Portugal do regime ditatorial. Observou que pouco subsistiu da revolução e que, se não tivesse havido, Portugal teria feito, de qualquer modo, uma espécie de transição para a democracia, a exemplo da espanhola.
Ele abordou causticamente a questão da terceira via. Avaliou que esta alternativa poderia representar "uma operação mais cosmética do que outra coisa" ou "um modo de disfarçar o capitalismo". Se estivesse mais perto do socialismo, seria chamada de "socialismo possível". Usou um velho provérbio português para descrever o que entende da situação. "Na minha terra se diz com patas e bolos se enganam os tolos", sublinhou.

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