Buenos Aires, 18 (AE) - A União de Trabalhadores da Indústria do Calçado da Argentina (UTICRA) denunciou que o aumento de pouco mais de 100% ocorrido na venda de calçados brasileiros no país no primeiro trimestre deste ano em relação ao ano passado se deve à uma queda no preço desses produtos, calculado em 13%, em média.
O sindicato protesta contra o que denomina de "subsídio" à indústria brasileira e pede que o governo argentino tome medidas para evitar "o estado de falta de defesa da indústria nacional diante da competitividade da indústria brasileira".
Augustín Amicone, secretario-geral de la UTICRA, disse à Agência Estado que "pedimos que o governo argentino tome medidas. Nós desejamos a integração do Mercosul, mas sabemos que esse processo pode ser traumático, e que para paliar os efeitos dos subsídios no Brasil deve aplicar-se um processo de adequação".
Segundo a UTICRA, ao longo de todo o ano passado, a Argentina importou do Brasil 10,8 milhões pares, o que significou 52% das compras desse produto ao exterior.
No primeiro trimestre do ano passado, a Argentina comprou do Brasil, 1,18 milhão pares. Nestes primeiros três meses deste ano
foram comprados 2,48 milhões de pares de sapatos brasileiros, sobre um total de 4,4 milhões de pares importados.
Em abril deste ano, a participação do Brasil foi de 1,4 milhão de pares, ou seja, 78% do total das compras. Comparado com os anos anteriores, o aumento foi significativo: em abril de 1997, foram comprados 800 mil pares do Brasil. Em 1998, foram importados 1,1 milhão de pares brasileiros.
A Câmara de Importadores de Calçados da Argentina discorda da UTICRA, acusa a indústria nacional de falta de competitividade, e sustenta que apesar do aumento das vendas de pares brasileiros
o preço desse produto não está mais barato: teria aumentado 5 7%. No entanto, Amicone afirma que o cálculo é uma falácia, já que "se medirmos o preço geral das importações com o Brasil, há um aumento no preço, mas quando o desagrega, veremos que 80% do total dos pares importados possuem uma diminuição do preço, que varia entre 11,6% e 13,2%.
Segundo Amicone, "o Brasil subsidia vários produtos, e no caso de calçado, há 42% de subvenções. Além disso, qualquer exportador tem créditos de pré-financiamento a 10% de juros anual". Além disso, o sindicato sustenta que o calçado brasileiro é favorecido por uma desvalorização de 30% do real.
Além do calçado, o aço proveniente do Brasil pode ter problemas na Argentina: a Comissão Nacional de Comércio Exterior está estudando a denúncia de dumping nas lâminas de aço a frio provenientes do Brasil. A abertura de uma investigação ainda não foi definida, mas existiria uma remota possibilidade de que seria suspensa. Entre os vários motivos estaria o argumento por parte da CSN e da Cosipa de que o preço da chapa a frio no Brasil possui o preço de US$ 370 por tonelada. No mercado argentino, o produto é vendido entre US$ 390 e US$ 400. As chapas da Siderar, a principal siderúrgica argentina, têm preços mais elevados: US$ 500 a tonelada.
A Siderar, empresa que denunciou os brasileiros, pertencente ao grupo Techint, também está sob suspeitas: está sendo investigada por praticar o monopólio de chapas de aço na Argentina. Além disso, também possui denúncias de dumping nos EUA. As próprias empresas que utilizam o aço da Siderar não estão satisfeitas: reclamam que podem perder competitividade por causa dos altos preços do aço argentino. No início do ano, a Siderar conseguiu que o governo argentino aplicasse medidas anti-dumping contra lâminas de aço a quente provenientes do Brasil.

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