Sorocaba, SP, 19 (AE) - Caminhões frigoríficos com carne proveniente do Mato Grosso do Sul, região considerada de risco para a febre aftosa por ter registrado focos recentes da doença, cruzam todo o Estado de São Paulo para descarregar o produto no Rio de Janeiro. A venda de carcaças bovinas em São Paulo - que não tem aftosa há três anos -, está proibida. Os carregamentos viajam à noite e passam pela capital paulista de madrugada. Há suspeita de que parte da carne esteja sendo descarregada em São Paulo, maior mercado consumidor do País.
Na madrugada de sexta-feira, durante uma blitz realizada pela Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento na Rodovia Castelo Branco, foram paradas mais de dez carretas que levavam carne sul-matogrossense para o Rio.
Metade das cargas tinha como destino o município carioca de Três Rios. Os carregamentos foram lacrados e estão sendo monitorados. "Se não for confirmada a saída dessa carne, saberemos que ela foi distribuída em São Paulo", disse o veterinário Reginaldo Campanhã, diretor técnico do Escritório de Desenvolvimento Agropecuário de Sorocaba, que participou da blitz.
Na operação, foram apreendidas 10 toneladas de carcaças bovinas e 14,4 toneladas de frangos congelados, abatidos de forma clandestina. A carne foi embarcada em Assis, mas pode ter vindo do Mato Grosso do Sul. A carga seria levada para Santos, segundo o motorista Leandro Acorsi. Os frangos foram carregados em Avaré e iam para São Paulo. O abatedouro não tinha registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF).
A Secretaria apertou o cerco à febre aftosa depois que o Escritório Internacional de Epizootias (OIE), localizado na França, aprovou em janeiro relatório do governo brasileiro considerando a área do círculo centro-oeste, que inclui os Estados de São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Distrito Federal e parte de Minas Gerais, como livre da doença.
A decisão abriu a possibilidade de São Paulo ampliar as exportações para a Europa. O rebanho paulista, de 12 milhões de cabeças, não apresenta casos de aftosa há três anos. Mato Grosso do Sul foi excluído desse círculo porque registrou focos no ano passado em Naviraí, sul do Estado. "A entrada de bovinos e de carcaças daquele Estado está proibida em São Paulo, mas não no Rio", disse Campanhã.
No osso, o vírus da aftosa se mantém ativo por 120 dias. O Estado do Rio é de alto risco para a doença, mas não tem o potencial de consumo de São Paulo, capaz de absorver os abates do Mato Grosso do Sul, que detém o maior rebanho do País, com 21 milhões de cabeças.
As 19 equipes volantes do Departamento de Defesa Agropecuária da secretaria adotaram os bloqueios rodoviários contra a aftosa como rotina. Cada equipe é composta por um médico veterinário, um engenheiro agrônomo e um auxiliar agropecuário. Também são realizadas megaoperações como a blitz que vistoriou 803 caminhões na Castelo Branco, com apoio da Polícia Rodoviária. Veículos que transportavam carnes, derivados
leite, queijo e outros produtos de origem animal.
Os técnicos checavam notas fiscais, carimbos do SIF, atestados sanitários e lacres, além de introduzirem termômetros na carga. As câmaras frias foram totalmente revistadas. O proprietário de um carregamento de queijo foi advertido porque a data de fabricação nas embalagens era daquele mesmo dia. "Não é possível que todo esse queijo tenha sido feito em poucas horas"
questionou o técnico.
A mesma operação foi realizada na Rodovia Anhanguera, perto de Jundiaí. O grande fluxo de caminhões frigoríficos carregados no Mato Grosso do Sul para o Rio chamou a atenção do diretor do Grupo de Defesa Sanitária Animal, Heinz Oto, coordenador da blitz. "Abrimos a carga e relacramos, exigindo que seja dada baixa no lacre em Queluz, no Vale do Paraíba, próximo ao Rio." Confrontando os relatórios é possível saber se a carne foi descarregada em São Paulo. "Nesse caso, comunicamos o Ministério da Agricultura e o frigorífico que embarcou o lote pode perder o registro e ser interditado." O cerco à doença e o veto à carne sul-matogrossense são apontados como responsáveis pelo aumento no preço da carne paulista. Enquanto em outras praças a arroba do boi gordo estava cotada, na semana passada, a R$ 35,00, no interior de São Paulo chegou a R$ 40,00. Oto considera o custo adicional insignificante se comparado ao ganho que o País terá com o fim da aftosa.

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