São Paulo, de vila à metrópole
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2000
Por Marisa Folgato 
São Paulo, 24 (AE) - Isolada no planalto, numa região de clima frio e úmido, foi fundada São Paulo, há 446 anos. Prometia pouco esse tímido povoado encravado numa colina nos Campos de Piratininga, em que índios e depois mestiços eram a maioria. Mas é aí, no dia-a-dia de uma vila pobre do seu primeiro século (1554-1654), que começa a ser traçada a que viria a ser a maior cidade do País, já na época com o crescimento desordenado, problemas com o lixo e a segurança.
Uma personalidade que inspirou pintores a contar sua história em diversos períodos e estilos. Referências que ajudam a perceber que a cidade cresceu e se reinventou muitas vezes.Uma metrópole onde os mais diferentes povos coexistem, entre eles os índios, seus primeiros habitantes. Reduzidos a uma minoria, tentam sobreviver sem perder a sua identidade cultural. Bala perdida - Uma bala perdida acertou em cheio o quarto de um dos três padres que moram no Pátio do Colégio, há quatro meses. "Soube também de um rapaz esfaqueado nas escadarias da vizinha Secretaria da Justiça", diz o padre César Augusto dos Santos, diretor de Desenvolvimento e Projetos Culturais do Pátio, local de nascimento da cidade, no centro.
Cenas ocorridas no lugar escolhido pelos jesuítas, na pontinha da colina, para construir seu colégio e sua igreja, fundando oficialmente, em 25 de janeiro de 1554, São Paulo de Piratininga. Estavam presentes os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, mas foi Manuel de Paiva quem celebrou a missa. No começo, o complexo dos jesuítas não passava de um salão de pau-a-pique com "14 passos de comprimento por 10 de largura".
Mas a localização era estratégica. "Do alto da colina, dava para monitorar todo o vale, com o Rio Tamanduateí ou Piratininga passando lá embaixo, cheio de curvas, onde hoje é a Rua 25 de Março", ressalta o professor-titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Nestor Goulart Reis, que até o fim do ano deve lançar um livro sobre a cidade.
Uma baixada tão inundável que Piratininga quer dizer peixe seco, numa referência aos cardumes que se perdiam nas cheias e se debatiam no barro quando as águas baixavam, barreira natural a possíveis ataques de índios. "Não é à toa que a região enche até hoje", diz a balconista de uma loja da 25 de Março Leila Santos, de 35 anos, uma baiana na capital há 20 anos. "Nunca pensei que essa rua tivesse sido rio."
"Do Tamanduateí se chegava aos Rios Tietê e Pinheiros de canoa e os rios eram as grandes vias de comunicação na época, até para a carga", diz Reis. "Havia também caça e peixe e até camarões de água doce."O acesso da colina ao rio era feito pela Ladeira Porto Geral, que terminava na margem, onde as canoas encostavam. Ladeira onde hoje o camelô Nelson Pavan, como muitos outros, ocupa a calçada com suas mercadorias: brinquedos feitos por ele mesmo. Eles são estimados em 6 mil no centro. "É uma briga feia querer trabalhar e não poder, com os fiscais correndo atrás da gente."
Escolha - Essa mistura de segurança, acesso e fartura fez os jesuítas escolher a região de São Paulo, em vez de permanecer em Santo André da Borda do Campo, localizada logo depois de terminar a floresta da Serra do Mar, onde começavam os campos. Foi a esse povoado que eles chegaram, depois de subir a serra, num trajeto muito difícil, trilha de índios.
Ali encontraram João Ramalho, que vivia com os índios locais e já escravizava os nativos de outras aldeias. Segundo Reis, ele dizia estar no povoado havia décadas quando os jesuítas chegaram, em 1553. Há controvérsia quanto à localização exata. Alguns historiadores dizem que ficava onde hoje é Santo André, outros garantem que o ponto seria em São Bernardo.
Ramalho tinha vários filhos mestiços. Casado em Portugal
teria se unido no Brasil à índia Bartira, filha de Tibiriçá, personagem importante na história de São Paulo. Mas essa união ainda causa polêmica.
Santo André foi elevado a vila em 1553. A ata da Câmara mais antiga disponível dessa vila é de 1555. "Nela, João Pires Gago, um fiscal, deixa a função ofendido por ser acusado de não mandar limpar os montes de lixo das ruas e ser multado em 500 réis", diz o historiador e diretor do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), Luís Soares de Camargo.
A Câmara e o pelourinho de Santo André foram transferidos para São Paulo em 1560. Muitos se mudaram de lá para Piratininga porque a vila tornou-se insegura. A primeira ata disponível da Câmara de São Paulo é de 1562 e trata da eleição dos vereadores. "Dois anos depois, está registrado um pedido de reforço por causa de ataques dos tamoios, que matam brancos como Geraldo e Francisco de Serzedo", diz Camargo.
O começo - A vida urbana é praticamente incipiente no século 16. Muito pobre, isolada, São Paulo desenvolve-se em torno do colégio dos jesuítas feito de paus roliços e coberto de palha. Atrás da sede inicial, os padres fizeram horta e pomar, misturando frutas européias a culturas indígenas como a mandioca. A vila torna-se depois exportadora de trigo, que se deu bem com o clima muito frio característico da cidade na época.
O prédio dos jesuítas foi refeito várias vezes, começando com a instalação de telhas e a sua ampliação. Anchieta até instalou, em 1570, um tablado, ao lado da igreja, para apresentar autos de cunho religioso. As construções já eram em taipa de pilão. Sobrou apenas uma parede desse material, que se desgastava com o tempo. Pode ser vista próximo do café que funciona no Pátio do Colégio, onde ainda há um museu e a igreja. A placa colocada no local garante que a parede é de 1585. Mas há especialistas que afirmam que a data é outra, provavelmente 1671
quando terminou a reconstrução da igreja.
Segundo Affonso de E. Taunay, os jesuítas foram expulsos da vila em 1640 pela primeira vez, ficando 13 anos no exílio e encontrando na volta igreja e colégio deteriorados.
Maioria - Os índios moravam vizinhos ao colégio e igreja e chegaram a ser a maioria da população no começo, segundo historiadores. Mas não eram de ficar muito tempo num só lugar. Em seu livro "História e Tradições da Cidade de São Paulo", volume 1, Arraial de Sertanistas (1554-1828), Ernani Silva Bruno mostra que, com a vinda de mais brancos, principalmente a partir de 1560, muitos índios abandonaram São Paulo e foram para duas aldeias que se edificaram nas proximidades, em Nossa Senhora dos Pinheiros (hoje Pinheiros) e em São Miguel (Paulista).
Ficou uma grande quantidade de mamelucos, filhos de portugueses com as índias, chamadas negras da terra. Foi muito grande a miscigenação e ainda é característica da cidade. "Sou neta de portugueses, mas tem algo de índio nos cabelos lisos e na pele morena de minha avó materna", diz Norma Batista Nogueira, de 43 anos, diretora da Divisão de Comunicação (correspondência) da Secretaria da Justiça, instalada num prédio vizinho ao Pátio do Colégio. "Gosto do centro, onde trabalho há 21 anos, e até vou à igreja do Pátio toda semana."
Essa mistura, que ainda se identifica na variedade de tipos dessa cidade, foi ampliada pelas participações dos negros e dos orientais. "Sou filha de portugueses, casei com descendente de italianos, mas minha família ainda tem japoneses e espanhóis", afirma Jandira Pereira Estevanato, de 69 anos.
Trabalhando como camelô no início da Ladeira General Carneiro, com o Pátio às costas, que já visitou várias vezes, Jandira luta para vender toalhas e ajudar os netos. "O estudo é a coisa mais linda do mundo", acompanhando o movimento intenso de pedestres apressados. Estima-se que circulam pela região do centro 2,5 milhões de pessoas ao dia.
Vila - Conforme Bruno, o acesso muito penoso do litoral para o planalto influenciou o desenvolvimento de São Paulo, elevada a vila em 1560. Em 1585, escrevia Anchieta: "A quarta vila na capitania de São Vicente é Piratininga, que está 10 a 12 léguas pelo sertão e terra a dentro. Vão lá por umas serras tão altas que dificultosamente podem subir nenhuns animais e os homens sobem com trabalho e às vezes de gatinhas por não despenharem-se."
Segundo historiadores, enquanto as capitanias do norte eram servidas até de sedas, com homens bem-vestidos, "escreveu Fernão Cardim que os moradores de São Paulo sofriam por falta de navios que trouxessem mercadorias e panos". Por conta disso
os paulistanos estavam completamente fora da moda, em 1585. Usavam algodão tinto para as roupas. Era um produto da "indústria" do século 16, assim como os chapéus de lã, úteis no frio intenso da vila, e a marmelada.
Segundo Bruno, "com sua gente bastante mestiçada ostentando essas roupas pobres e antiquadas, em relação às metrópoles e populações litorâneas, movimentando-se em ruas estreitas e sinuosas, cercadas de casas de taipas e um ou outro edifício conventual esparramados nos pontos extremos da elevação com os fundos dando para barrocas, São Paulo não teve traçado tradicional, em torno da igreja, do mercado e da casa de administração, nem criado na base do reticulado".
Ele lembra que a sua Casa da Câmara, nos séculos 16 e 17
funcionou em prédios alugados. Muitos mantinham casas na cidade apenas para negócios, festa ou atividades religiosas. Ficavam a maior parte do tempo em suas "fazendas".
Em ata da Câmara de 1609, segundo Bruno, os oficiais resolvem se reunir apenas uma vez por mês "por se acharem muito longe uns dos outros e dessa vila". Em 1628, a ata registra "por esta vila ser de homens nobres e honrados, e viverem de suas roças e lavouras em que todos se ocupam a mor parte do ano, fica a vila deserta..."


