Aparecida, SP, 11 (AE) - O Santuário Nacional de Aparecida, no Vale do Paraíba (SP), está aberto a negócios. Depois do shopping de R$ 28 milhões, com 545 lojas (que alguns chamam de Shopping da Fé - O paraíso das compras), vem aí o maior aquário de água salgada do Brasil, o heliporto para a linha regular de helicóptero e o estacionamento para carros e ônibus (pago) com seguro.
Mais para frente, talvez o teleférico. "Existe, aqui, um imenso potencial", diz o padre Darci José Nicioli, o administrador do santuário. "Se alguém topar, sentamos e conversamos."
Uma amostra expressiva desse potencial estará amanhã (12), Dia de Nossa Senhora de Aparecida, no santuário, que ostenta a maior basílica do mundo (só a torre tem 100 metros de altura) e se situa na Estância Turístico-Religiosa de Aparecida, no Vale do Paraíba, a 180 quilômetros de São Paulo. Esperam-se mais de 350 mil romeiros, atraídos pelas comemorações do dia de Nossa Senhora Aparecida e pela participação do cantor e compositor Roberto Carlos numa missa (o cantor vem agradecer por uma graça).
"O potencial do santuário não é conhecido no País", diz padre Darci, de 40 anos, ex-bancário e ex-pofessor de Teologia, com a aparência (quando não está com o clergymam) e retória de um eficiente executivo. Ele tem razão. Este ano, o santuário deve receber 7,8 milhões de romeiros. O gasto per capita dos romeiors, medido pelo staff de Darci, é de 75 reais. "É quanto a vinda de cada um movimenta."
Tem-se, portanto, um movimento anual de R$ 585 milhões - mais de meio bilhão. Padre Darci não se conforma com o potencial econômico mal- aproveitado do santuário e da cidade. "A cidade não tem um único hotel quatro estrelas." Para quem pensa no estereótipo do romeiro pobre chegando de ônibus, Darci sugere: "Dê uma volta pelo estacionamento, você vai ver quantos carros BMW estão ali." A linha de helicóptero está operando: saídas de São Paulo, três vezes por semana. O helicóptero pousa no pátio da basílica. O projeto, agora, é da construção do heliporto para a regulamentação da linha. Empresários mais atentos desembarcaram em Aparecida. Uma empresa com capital predominante italiano, associada à Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BB), construiu o Magik Park, a 500 metros da basílica. Ainda não foi inaugurado, mas funciona há um ano. O passaporte para adultos e crianças maiores que 1,20 metro custa 14,90 reais (o preço cai junto com a estatura da criança).
O padre acredita nesse filão, que chama de "turismo religioso". "A pessoa vem para cá prioritariamente para rezar", diz. "Mas, depois, pode ter seu lazer, ir às compras e à praça da alimentação." Um dos projetos dele em vias de sair é criar, no shopping, uma área de lazer para jovens e crianças. Pista de patinação e jogos tipo fliperama, estes, "desde que não firam a moral e os bons costumes" - não tenham jogos com violência. Outro projeto, com vistas à "educação para o meio ambiente", é a construção do superaquário, também junto ao shopping (com entrada paga), feito em conjunto com uma empresa de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.
"Por que não se construir um teleférico do Morro do Cruzeiro (que fiéis sobem para pagar promessa) à Basílica?", pergunta o padre. O romeiro percorreria as 15 estações da Via Sacra, morro acima. Em compensação, depois de cumprido o voto, desceria confortavelmente de teleférico para lanchar e fazer compras na basílica. "Poderíamos cobrar 1 real por passageiro"
calcula padre Darci. Há um mês, d. Eugênio Salles, carceal-arecebispo do Rio, levou 50 mil fiéis Cruzeiro acima. Só num gesto desses, o teleférico faturaria R$ 50 mil.
"Em janeiro, vamos oferecer estacionamento pago aos romeiros", diz o padre. O preço deve ser 5 reais para carros (cabem 6 mil) e 20 reais para ônibus (lugar para 4 mil) por dia. Os flanelinhas saem, entram seguranças e o carro fica segurado. "O romeiro vai rezar sossegado porque seu carro estará segurado." Não fica mal à Igreja de Cristo (que expulsou a chicotadas os vendilhões do templo) fazer tantos projetos para ganhar dinheiro?
"Se estivéssemos falando da Igreja celestial, a do Céu, não estaríamos tratando de gastos; mas estamos falando da igreja dos peregrinos, que tem de se organizar para os atender bem; isso tem um custo e os peregrinos pagam por ele." "Só com esmola não dá." Os de classe média podem comer um lanche no McDonalds ou no Mister Sheik, na Praça de Alimentação (onde o restaurante Santa Ceia vende comida por quilo) e fazer as compras nas lojas do shopping (que "têm um mix repetitivo", segundo o padre). Para os pobres, há muito espaço e muita água.
Há um restaurante no subsolo da basílica para esquentar marmitas, um bosque para piquenique e camping e mais de 300 pontos de água (captação e tratamento feito pelo santuário), além de 936 banheiros.
Muitos romeiros chegam a pé, neste caso, por devoção. Os romeiros têm muita fé, mas também gostam do turismo religioso. A romeira Maria de Lourdes Domingues, de Santo Amaro, capital, veio a primeira vez com 18 anos.
Está com 59 e só faltou uma vez. "Recebi dois milagres." Um foi a cura da mãe, Maria Tereza, de 85 anos, que sofria de várias moléstias. Maria de Lourdes "adorou" a construção do shopping. A mãe dela trouxe 50 reais para ajudar na conclusão da basílica.
O piso e o acabamento não estão prontos. Para ajudar a os terminar e a obras assistenciais mantidas pelo santuário, os fiéis deixam os óbulos: de 86 a 92 centavos per capita por ano - de R$ 6,7 milhões a R$ 7,1 milhões, este ano.

mockup