São Paulo, 18 (AE) - A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo realizou com sucesso o primeiro reimplante duplo de mãos do País. Após 11 horas de cirurgia, a equipe do médico Mogar Dreon Gomes, chefe do setor de microcirurgia do Departamento de Ortopedia do hospital, conseguiu reimplantar as mãos de Anastacio Oruê, de 59 anos, que foram cortadas durante um acidente no dia 26 de julho.
A cautela ao anunciar o fato foi justificada por Gomes durante entrevista coletiva realizada hoje no hospital: os primeiros 10 dias após a cirurgia são críticos e determinam o sucesso do procedimento. O especialista prevê que Oruê recupere 50% dos movimentos das mãos nos próximos seis meses. "Mas o resultado final só poderá ser avaliado depois de um ano", afirmou.
Oruê é dono de equipamentos gráficos e terceiriza seus serviços para a gráfica Seconsi, na capital. Por volta das 18 horas do dia do acidente, ele estava trabalhando com uma máquina de guilhotina. O papel ficou preso. "Não deu tempo de tirar a mão", disse Oruê, acrescentando que trabalha há seis anos com esse equipamento e nunca teve problemas. "Eu estava cansado", justificou.
No próprio ambulatório da gráfica, os médicos colocaram as mãos em um saco plástico, acondicionadas em gelo e água. O corte foi na altura dos punhos. "A preservação dos membros é essencial para o reimplante", afirmou Gomes. Às 20 horas, Oruê chegou à Santa Casa. Ele foi levado para cirurgia, que começou às 21 horas. Gomes, que coordenou a cirurgia, teve de tomar cuidado para religar os tendões, nervos e veias do antebraço ao punho. No total, 52 tendões foram costurados, 5 nervos, 2 artérias e 4 veias.
Cada sutura foi feita com muita precisão, usando uma linha do tamanho de 22 micras. Isso porque a veia não pode ter um desnível quando religada. "Um desnível pode desencadear uma trombose, que provoca a obstrução do vaso", explicou o médico. Essa é a principal causa de falhas em reimplantes. "Por isso, é preciso esperar 10 dias antes de saber se a cirurgia foi bem-sucedida".
Os nervos constituem uma das partes mais difíceis da operação. "Há mais de 60 mil terminações nervosas nessa região", considerou Gomes. Segundo ele, a sensibilidade dos nervos aumenta um milímetro por dia. Os tendões também requereram um cuidado especial. É preciso movimentar as mãos para evitar a aderência dos tendões à partes vizinhas. Oruê está fazendo fisioterapia no hospital e deve continuar com esse tratamento por mais seis meses.
Gomes revelou que há poucas cirurgias de reimplante no Brasil, em grande parte por causa da falta de informação sobre como acondicionar adequadamento o membro após o acidente. "É preciso divulgar como preservar a parte amputada", aconselhou. Além da Santa Casa, o Hospital das Clínicas também realiza esse tipo de cirurgia. Milagre - Oruê nunca imaginou que teria suas mãos reimplantadas. "Foi dez vezes um milagre", desabafou. Agora, depois da cirurgia, ele decidiu aposentar-se, vender sua microempresa e dedicar-se ao esporte. Maratonista, ele já correu em seis São Silvestres e tem mais de 40 medalhas. Ele corre toda manhã no Parque do Ibirapuera e já se programou para participar de uma maratona em setembro.

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