Santa Casa de Itapeva faz 100 anos com boa "saúde"
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de junho de 1999
Por José Maria Tomazela 
Itapeva, SP, 09 (AE) - A Santa Casa de Itapeva, a 280 quilômetros de São Paulo, completa hoje um século de funcionamento ininterrupto gozando de boa "saúde". O prédio com quase 10 mil metros de área construída, revigorado por reformas e ampliações, pode ser considerado novo. O hospital está bem equipado para o atendimento de mil pacientes internados por mês, com a constante ocupação dos 216 leitos. O pronto-socorro atende a 4.800 pessoas por mais.
Ao contrário do que ocorre em grande parte dos hospitais filantrópicos, os 280 funcionários e 62 médicos do corpo clínico recebem os salários em dia. Mesmo com 80% dos atendimentos feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o hospital não tem dívidas atrasadas, garante o superintendente Aristeu de Almeida Camargo Filho. "Temos um déficit operacional de 10% ao mês, em razão da defasagem dos valores do SUS, mas trabalhamos duro para não ficar no vermelho." Na comemoração do centenário, a Santa Casa inaugura uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) bem maior que a atual, com 800 metros de área construída e capacidade para 12 pacientes, a um custo de R$ 990 mil.
A maior parte dos recursos veio do governo federal, através do projeto Reforsus (Reforço à Reorganização do Sistema Único de Saúde). A Santa Casa foi uma das 52 instituições contempladas pelo programa em todo País. Da contrapartida de R$ 200 mil, o hospital já colocou R$ 50 mil. "Estamos iniciando uma campanha para arrecadar os R$ 150 mil que faltam", contou o superintendente. Uma conta especial, denominada "Santa Casa Um Século", com o número 100-5, foi aberta no Banespa local para doações. "A diretoria, os funcionários e os médicos estão abrindo a lista de doadores", disse Camargo Filho.
Será aberto, também, um livro de ouro para as doações de empresários e lideranças regionais. Dia 14, a Santa Casa reúne os prefeitos dos 18 municípios que se utilizam dos seus serviços para pedir apoio a novos projetos. "Ainda nos faltam serviços de hemodiálise, hemodinâmica e estrutura para cirurgias cardíacas", explicou. O hospital, que recebe um subsídio mensal de R$ 36 mil da prefeitura, inaugura ainda a ampliação da lavanderia, feita com recursos do Estado.
Mas é a comunidade que vem ajudando a reformar e ampliar as unidades de internações, enfermaria, serviços de nutrição e dietética e os setores administrativos. Desde 1991, o hospital tem seu plano de saúde, o Santa Saúde, com 8 mil associados. No ano passado, a Santa Casa atendeu 145 mil pessoas, número que supera a população da cidade, de 130 mil habitantes, realizando 12,5 mil internações.
INCENDIO - O hospital de Itapeva "renasceu das cinzas", depois de ter sido destruído por um incêndio na década de 40, segundo conta a professora Leonor Ribeiro de Oliveira, autora do livro "Santa Casa de Misericórdia de Itapeva", editado em 1994
quando a instituição fez 95 anos. Nascida em Itapeva, na década de 20, dona Leonor foi testemunha dos fatos que narra no livro. "Na madrugada de 14 de julho de 1943, a cidade acordou com os gritos de socorro e os toques insistentes dos sinos, anunciando o terrível incêndio."
Segundo ela, a cidade inteira se movimentou. "Uma verdadeira onda humana deslocou-se em direção ao hospital, tomado pelas chamas." O fogo foi dominado, mas grande parte do prédio estava destruída, contou. "Mas os doentes foram removidos a tempo e logo era iniciado o trabalho de reconstrução."
A historiadora conta que a primeira Santa Casa foi criada em Lisboa, no dia 15 de agosto de 1498, pela rainha dona Leonor de Lancaster, irmã de D. Manoel, o Venturoso. Era uma instituição piedosa, voltada para o atendimento dos pobres. No Brasil, a primeira Santa Casa foi instalada em Santos, em 1543. A de São Paulo foi criada em 1576.
Quando foi criada a de Itapeva, em 10 de junho de 1899, a cidade chamava-se Faxina e não tinha luz elétrica, só instalada em 1903, nem água encanada, que só chegou em 1915. A primeira sede foi uma casa alugada, na Rua Paissandu, no. 30. Alexandrino da Silveira Morais foi o primeiro médico, ganhando 100 mil réis mensais, e Roberto Lavardens o primeiro enfermeiro. Já em 1904, o hospital correra risco de fechar porque o governo deixara de repassar o auxílio e não havia como pagar o médico. "A situação foi contornada com as doações do povo", contou a escritora. Um benfeitor, José Basílio de Araújo Ferraz, deixou todos os bens para a instituição.
"Hoje, a Santa Casa é um hospital moderno, um orgulho para a cidade", afirma. Segundo Leonor, é difícil encontrar um morador de Itapeva que ainda não usado os serviços do hospital.


