A gestão do saneamento básico com base nas bacias hidrográficas, em vez dos limites político-administrativos dos municípios, é uma estratégia que vem sendo ampliada pela Sanepar para aumentar a segurança hídrica, reduzir custos operacionais e tornar mais eficiente a prestação dos serviços de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto.

O modelo já começa a ser aplicado em obras de esgotamento sanitário, como a ampliação da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) de Tamarana para também receber o esgoto coletado no distrito de Lerroville, em Londrina, e deve ganhar escala com o Sainp (Sistema de Abastecimento Integrado do Norte do Paraná), empreendimento de R$ 2 bilhões que conectará os sistemas de abastecimento de diversos municípios.

O gerente-geral da Região Nordeste da Sanepar, Rafael Leite, destaca que a natureza não segue as divisas entre municípios e, por isso, o planejamento do saneamento precisa acompanhar a lógica das bacias hidrográficas. "O saneamento não respeita a divisão geopolítica. A gente precisa respeitar os limites da natureza", afirmou.

A companhia desenvolve estudos com horizonte de 50 anos para definir onde captar água e onde lançar o esgoto tratado, considerando o crescimento populacional e a disponibilidade hídrica. O objetivo é aproveitar da melhor forma os recursos naturais, que se tornam cada vez mais disputados tanto pelo abastecimento público quanto pela indústria e pela agropecuária.

"O rio não passa por apenas uma cidade. Precisamos aproveitar esse recurso hídrico, que está cada vez mais escasso. A água vai sendo distribuída por sistemas integrados ao longo do caminho, enquanto o esgoto faz o percurso inverso até um ponto que tenha capacidade para receber o efluente tratado", explicou Leite.

Essa integração já faz parte da operação da companhia. Atualmente, cerca de 45% do esgoto coletado em Londrina é tratado em Cambé, enquanto aproximadamente 95% da água distribuída naquele município tem origem no sistema de Londrina. Para a Sanepar, trata-se de um único sistema operacional, independentemente das fronteiras municipais.

Esgoto em Tamarana

A mesma lógica será aplicada na ampliação da ETE de Tamarana. A unidade, inaugurada em 2016, terá sua capacidade de tratamento praticamente triplicada, passando de 7,5 litros por segundo para 22 litros por segundo. Além de ampliar a cobertura de esgoto em Tamarana, a estação passará a receber os efluentes coletados em Lerroville.

A decisão foi tomada após estudos hidrológicos feitos entre 2023 e 2024, que analisaram a disponibilidade hídrica e identificaram que Tamarana e Lerroville pertencem à mesma bacia hidrográfica e compartilham o mesmo ponto tecnicamente adequado para lançamento do efluente tratado. "Para nós é um sistema só. A tubulação vem de Lerroville até Tamarana e o tratamento será único", resume.

Microbacia abrangida pelo sistema de esgotamento sanitário integrado Lerroville - Tamarana
Microbacia abrangida pelo sistema de esgotamento sanitário integrado Lerroville - Tamarana | Foto: Divulgação/Sanepar

Tamarana possui atualmente cobertura de coleta e tratamento de esgoto de aproximadamente 47%, abaixo da média estadual, que supera 82%. O projeto prevê elevar esse índice para 65% até 2030 e alcançar 90% em 2033, atendendo às metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento.

As obras previstas incluem a ampliação da estação existente e a incorporação de novas etapas de tratamento. Além dos atuais reatores anaeróbios, serão implantados filtros percoladores aeróbios, tecnologia que melhora a remoção de matéria orgânica e resulta em um efluente de qualidade superior antes do lançamento no Rio Apucaraninha.

Leite explicou que estações maiores permitem incorporar processos mais avançados de tratamento. Como consequência, o efluente devolvido ao rio apresenta melhor qualidade, reduzindo a chamada zona de autodepuração, trecho do curso d'água que necessita de recuperação natural após receber o lançamento tratado.

Outro aspecto que demonstra a integração regional é o gerenciamento do lodo produzido na estação. Desde a implantação da ETE de Tamarana, em 2016, esse material é transportado para Londrina, onde a Sanepar concentra o tratamento do lodo gerado também em Cambé e nas próprias estações londrinenses antes da destinação final.

Sainp amplia integração

A mesma filosofia de planejamento orienta o Sainp, cujo edital internacional já foi lançado pela Sanepar. O projeto prevê um investimento estimado em R$ 2 bilhões para integrar o abastecimento de Arapongas, Apucarana e Rolândia na primeira etapa. O sistema vai operar no sistema de locação de ativos e o leilão está marcado para 24 de setembro, na B3 (Bolsa de Valores de São Paulo)

O empreendimento contará com duas novas captações, no Rio Taquaras e no Ribeirão dos Apertados, que alimentarão uma estação de tratamento de água instalada na divisa entre Arapongas e Apucarana. A água tratada será distribuída para os três municípios por uma rede única.

Em uma segunda etapa, o sistema será conectado ao abastecimento vindo do Rio Tibagi, integrando também Londrina, Cambé e Sabáudia. Ao passar a operar com duas fontes de abastecimento, a rede poderá transferir água entre os sistemas sempre que houver necessidade.

Para a companhia, a integração regional representa uma resposta ao aumento da frequência das estiagens registradas nos últimos anos. Diversas pequenas captações instaladas em ribeirões vêm apresentando redução de vazão, diminuindo a confiança na capacidade de abastecimento destes mananciais.

Por isso, parte das estações de tratamento de água de pequeno porte deverá ser desativada gradualmente. Permanecerão apenas as consideradas estratégicas, enquanto o abastecimento passará a depender prioritariamente de mananciais maiores e mais perenes.

Além da maior segurança hídrica, a regionalização reduz custos operacionais. A concentração da produção de água e do tratamento de esgoto em sistemas de maior porte diminui a necessidade de manter inúmeras estruturas pequenas, cada uma com operadores, equipamentos e manutenção próprios.

Universalização

Os investimentos fazem parte da estratégia para atender ao Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, que estabelece como metas o atendimento de 99% da população urbana com água tratada e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.

Leite ressalta que a Sanepar já fornece água tratada para praticamente toda a população urbana atendida pela companhia e trata 100% do esgoto que coleta. "A Sanepar não implanta ligações de esgoto sem ter capacidade para tratar esse volume. Todo o esgoto coletado é tratado", ressaltou.

Ele também destaca o impacto do saneamento na saúde pública. Estudos apontam que cada aumento de 1 ponto percentual na cobertura de esgotamento sanitário reduz centenas de internações anuais por doenças de veiculação hídrica.

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