Na pequena Paraíso do Norte (82 Km a Oeste de Maringá), de 9,7 mil habitantes, o carnaval extrapolou a avenida principal e o clube; há 7 anos, os foliões se reúnem também no cemitério municipal.
Tudo começou no carnaval de 2000, o primeiro da cidade sem Nelson Jota Fávaro, professor de educação física e maior folião de Paraíso do Norte, que morreu no dia 15 de outubro de 1999.
Depois de saírem do baile, familiares e amigos do 'Nélsão', como o professor era chamado, sentindo a falta do falecido, foram até o cemitério, pularam o muro e tomaram as últimas cervejas ao redor do túmulo dele. ''Nós até jogamos um pouco de cerveja na lápide, que é pra ele tomar uns goles também'', diz o amigo Luiz Idelfonso Filho.
Foi a forma encontrada por aqueles que conviveram com o professor para homenageá-lo. Segundo eles, Fávaro era uma dessas ''figuras'', conhecido de todos, que tinha como característica o humor apimentado e um jeito debochado de viver.
Seus filhos, também professores, Frank Fávaro e Norma Kátia Fávaro, confirmam que o pai era só alegria e gostava muito de carnaval, tanto que confeccionava as próprias fantasias, com as quais ganhou muitos concursos na cidade. ''Até hoje, tem muita gente que pega as fantasias do meu pai emprestadas nos dias de carnaval'', conta Norma Kátia.
Nascido em 1936 no interior de São Paulo, filho de italianos e apaixonado pelo Palmeiras, 'Nélsão' chegou a Paraíso do Norte em 1951, quando a cidade tinha apenas um ano de fundação. Trabalhou com os pais na lavoura antes de se tornar professor primário. Mais tarde fez Educação Física na Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Neste ano, a folia no cemitério foi realizada no final da tarde do sábado de carnaval e reuniu mais de 20 pessoas para o brinde ao 'Nélsão'.
''Ele sempre disse que quando morresse, queria alegria e não tristeza. Por isso, não só no carnaval, mas também em outras oportunidades, a gente vem aqui tomar umas cervejas'', explica um dos companheiros de muitos carnavais do professor, o fiscal agrícola Ademir Garcia Luz.
Para os filhos de Fávaro, fica o orgulho de ver que o pai continua transmitindo alegria e fazendo o carnaval de Paraíso do Norte especial, mesmo depois de morto. ''É bom ver que meu pai só fez amizades. Ele deixou uma marca registrada, que é a da alegria'', ressalta Frank Favaro.
Fávaro também era apaixonado por música, Ele coordenou a fanfarra da cidade e também compôs um samba-enredo em homenagem a Paraíso do Norte. Mesmo sem ter conhecido pessoalmente o sambista Noel Rosa, Fávaro parece ter sido capaz de inspirá-lo: ''Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada como o nome dela. Se existe alma, se há outra encarnação, eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão'', diz a letra da música, que foi escrita por volta de 1930, mas parece ter sido feita sob encomenda para o 'Nélsão' de Paraíso do Norte.

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