Salvador mostra a evolução dos trios5/Mar, 18:01 Por Rosa Bastos Salvador, 5 (AE) - Na passagem do trio de Armandinho na Avenida Sete de Setembro, sexta-feira, alguns portadores de deficiência física agitavam os braços e giravam em cadeiras de rodas no meio da multidão, confirmando que "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu", como já dizia Caetano Veloso em canção dos anos 70. Em outros carnavais, isso seria impensável. Hoje, os portadores de deficiência só conseguem usufruir do direito de brincar o carnaval, como todo mundo, porque a polícia está maciçamente na rua: 15 mil policiais militares. Para o folião comum - aquele que só quer ser feliz, brincando e deixando os outros brincarem - tanta polícia incomoda. É preciso pular com muito cuidado para não esbarrar em um policial. Um esbarrão, ainda que involuntário, pode custar um tapão nas costas que se tem de engolir calado. Muitas vezes a pancadaria é injusta, quase sempre excessiva. Mas a presença da polícia tem inibido as violentas brigas de gangues, o maior problema enfrentado pelo folião "pipoca", aquele que não tem dinheiro para pagar a entrada num bloco com toda infraestrutura ou que não gosta mesmo de pular limitado por cordas. A felicidade de dançar livremente pelas ruas atrás do trio elétrico de Dodô e Osmar só conhece quem já viveu. Sexta-feira, depois de tocar frevos e até fazer algumas concessões à axé-music, Armandinho fechou a madrugada tocando o Bolero, de Ravel (para delírio dos gays, que dançavam na ponta dos pés), e Something, dos Beatles. Não teve para mais ninguém. Quem estava na Praça Castro Alves ouviu. Quem não estava, ainda tem a chance de ouvi-lo tocar amanhã (6), no Farol da Barra, com convidados, só música instrumental. Exatamente como fazia o seu pai, Osmar Macedo, nos anos 50, quando inventou o "pau elétrico", precursor da guitarra baiana e saiu tocando frevos e marchas em um Ford 29 com o amigo Adolfo Nascimento, o Dodô, responsável pela amplificação do som. Só queriam se divertir, mas uma multidão os seguiu. A "velha fobica" da dupla elétrica, que depois virou trio, está reproduzida no sofisticado caminhão de luz e som que este ano leva Armandinho e seus irmãos Aroldo, Roberto e André pelas ruas de Salvador. Muita coisa, porém, mudou. Na década de 60, os seguidores de Osmar desfilavam em caminhões com visual de garrafas e espaçonaves reproduzindo o som que ele fazia. Em 1975, os filhos dele deram ao trio uma formação de banda, substituindo as caixas de percussão por bateria elétrica, colocando baixo, além das guitarras. O caminhão virou um palco. "Esse foi o grande divisor de águas", diz o guitarrista Aroldo Macedo. A mudança influenciou a geração de novos músicos como Bell Marques, do Chiclete com Banana,Luiz Caldas e Durval Lélis. Depois o trio ganhou voz, a de Moraes Moreira. Os meninos tocavam Mozart e Beethoven, como o pai queria, e rock'n roll como gostavam. "Meu pai curtia, ele era ligado em toda música boa", lembra Aroldo. Em abril ele inaugura a primeira escola de guitarra baiana "do mundo". Armandinho será professor. "Vou ensinar mostrando, como meu pai me ensinou", diz o músico. Este ano, em que se comemora o jubileu de ouro do trio elétrico, saíram 70 trios no carnaval de Salvador. O trio de Armandinho, Dodô e Osmar foi além. Dois anos depois de "trioeletrilizar" a Piazza Navona, em Roma, em 1983, eles fizeram um verdadeiro carnaval baiano em Toulouse, na França, para milhares de pessoas. "Nossa cidade é muito parecida com Salvador, com essa saudável mistura de raças", diz o prefeito Dominique Baudis. "Caminhar pelo bairro Arnaud Bernard é como andar pelas ruas alegres e coloridas do Pelourinho." O caminhão executado por Osmar, "o primeiro trio elétrico francês", continua sendo utilizado para shows. Armandinho ainda toca terça-feira no Farol da Barra, comandando o encontro de trios que fecha o carnaval e era tradicionalmente realizado na Praça Castro Alves.