Brasília, 21 (AE) - O documentarista João Moreira Salles afirmou hoje que jamais apoiou "nenhuma atividade ilícita" do traficante Márcio VP. Em depoimento de cinco horas convenceu a CPI do Narcotráfico, na Câmara, de sua inocência. Ele foi convocado por ter financiado a produção de um livro pelo traficante carioca, o que lhe rendeu acusações de fazer apologia ao narcotráfico em seu último filme, gravado no morro Dona Marta
no Rio de Janeiro.
Salles ofereceu a Márcio VP uma bolsa de R$ 1.200 mensais para que ele escrevesse sua história. O traficante refugiou-se na Argentina durante três meses para escrever o livro e continua com destino ignorado pela polícia do Rio de Janeiro.
Na avaliação de parlamentares da CPI do Narcotráfico, além de ter sido afastado das suspeitas, o documentarista contribuiu com os trabalhos da comissão. "O filme mostra uma realidade que estamos vivendo todo dia, e que certamente será importante nas nossas proposições de políticas públicas para o País", declarou o presidente da comissão, deputado Magno Malta (PTB-ES).
Salles acredita que, para se combater o narcotráfico, o criminoso deve ser reprimido. Ao mesmo tempo, defende a necessidade de alternativas para a vida no crime, como a bolsa que ofereceu ao traficante carioca. Ele diz ter convencido Márcio VP a abandonar a bandidagem. "Muita gente não acredita que nossa relação seja apenas essa", lamenta João.
Márcio VP está foragido. O documentarista afirma que não tem contato com ele desde dezembro. "Não sei onde ele está", afirmou. Na sua opinião, os boatos de que estaria envolvido com o traficante são devidos a um encontro inusitado de duas pessoas muito diferentes: "Uma com um sobrenome e a outra alçada ao lugar de bandido número um do Rio de Janeiro. Isso gera, evidentemente, notícia."
Nesta semana, a CPI continua a investigar o narcotráfico no Rio de Janeiro. Na quinta-feira, a comissão ouve os depoimentos do secretário de segurança do Rio de Janeiro, Josias Quintal, e do ex-coordenador de segurança pública do Estado, Luís Eduardo Soares. O funcionário foi demitido depois de denunciar a chamada banda podre da polícia carioca.
Na opinião de Magno Malta, "todo salvo conduto no narcotráfico e no crime é a autoridade. É desse problema que a CPI quer tratar de perto." João Moreira Salles, por sua vez, não acredita que a verba do narcotráfico seja operada por pessoas semi-analfabetas moradoras das favelas do Rio de Janeiro. Segundo ele, o tráfico de drogas movimenta US$ 150 bilhões por ano. "Eles são maiores do que a Microsoft e a GM", afirmou o documentarista.

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